China planeja, Brasil reage: Dois modelos dois destinos

Estado soberania e estratégias de desenvolvimento no século XXI.

Por: João Vicente Machado Sobrinho

Tem sido longa a discussão, quer sobre o avanço técnico cientifico, quer sobre o surpreendente e vertiginoso modo de crescimento econômico da China nos últimos tempos. Todavia, pouco ou quase nada tem-se averiguado sobre a origem da causa de todo esse desenvolvimento, que com certeza, em foi uma dádiva divina nem caiu milagrosamente dos céus.

Na época contemporânea a reorganização da economia mundial, tem exposto com nitidez crescente, o papel decisivo do Estado na condução das ações de desenvolvimento de quaisquer nações. Longe de ser um processo espontâneo, regido exclusivamente pelas forças invisíveis do mercado, o crescimento econômico sustentado revela-se cada vez mais, como um produto de escolhas políticas deliberadas, como opções de modelos de desenvolvimento, de estratégias nacionais coerentes, além de uma relação dinâmica entre o planejamento e a sua aplicação prática. Nesse contexto, a comparação entre o modo de desenvolvimento da China e do Brasil, emerge como um campo privilegiado de análise.

Partindo de condições históricas adversas ao final do século XX, ambos os países trilharam caminhos distintos. A China, um país de cultura milenar, sob a liderança inovadora do primeiro ministro Deng Xiaoping, implementou em tempo record um modelo híbrido de desenvolvimento — frequentemente descrito como Capitalismo de Estado — combinando abertura econômica com forte coordenação estatal. O Brasil, por sua vez, optou sobretudo a partir dos anos 1990, por uma economia de mercado, marcada por um aprofundado laissez-faire, reduzindo drasticamente e praticamente anulando o papel do Estado, na crença utópica que a famigerada mão invisível do mercado seria a solução. Os resultados em ambos os casos citados não tardaram a se manifestar.

Enquanto a China se consolidou como a principal plataforma industrial e a segunda economia do mundo, avançando de modo progressivo em setores de alta tecnologia e amplia sua influência geoeconômica, o Brasil submeteu-se de forma submissa, aos ditames das chamadas Leis de Mercado que resultou num processo de declínio industrial. O país hoje está reduzido a um simples exportador de commodities, uma atividade de muito risco, muito mais sujeita às oscilações e os humores mercado internacional.

Este ensaio sustenta a crença de que as duas trajetórias retro-citadas não são fruto do acaso, mas sim a expressão de projetos nacionais distintos — ou no caso brasileiro, da ausência de um projeto econômico consistente e continuado. Ao confrontar os dois modelos, tentamos demonstrar que o desenvolvimento econômico de quaisquer país, é inseparável da capacidade estatal de planejar, de coordenar e de induzir transformações estruturais.

A China de meados do século XX, era um país agrário, tão ou mais atrasado do que a Rússia de 1917 que estava às voltas com a 1ª Guerra Mundial e com uma revolução popular de caráter socialista em curso. Ora, as condições objetivas para a deflagração de uma Revolução Socialista na Rússia daquela época eram sobejamente abundantes. O país de há muito estava submetido ao tacão da monarquia absolutista dos Czares, que havia levado o povo soviético à fome e à miséria.

A economia liberal da Europa do pós guerra, estava às voltas com profundas sequelas econômicas, convivendo simultaneamente com uma das suas maiores crises cíclicas que, atravessando o Atlantico, alcançou e golpeou a surgente economia dos Estados Unidos da América do Norte-USAN, com o crash da bolsa de Nova York.

O momento de apreensão econômica estava propicio para o surgimento das mais variadas ideias liberais capitalistas, principalmente de cunho autoritário e antidemocrático como foi o caso da proposta fascista de Benito Mussolini na Itália e o ideário nazista de Adolf Hitler na Alemanha.

No curso da guerra, o que aconteceu de diferente e inusitado, foi a eclosão de uma revolução operária e camponesa que vinha sendo gestada na Rússia, sob o lema- “Paz, Pão e Terra” utilizado por Vladimir Lênin e pelos Bolcheviques. O conteúdo desse lema, de viés nitidamente socialista, para os liberais da época era “o Fantasma que varria a Europa” que anunciara o filósofo judeu alemão Karl Marx, no seu Manifesto Comunista de 1848. Na verdade, a proposta bolchevique era contraria a todo receituário da ideologia liberal e representava um enorme perigo, por incorporar o fantasma do Comunismo.

Nesse contexto, tanto a luta acontecida na década de 1920 na Rússia quanto a que veio a se repetir na China em 1948, não era contra as pessoas físicas de Stálin ou de Mao Tsé Tung e sim contra o “Comunismo Ateu” um anátema muito utilizado pela igreja católica durante a maior parte dos séculos XIX e XX.

A maior preocupação tanto da Rússia de 1917 quanto da China de 1948, era com a escassez aguda de condições subjetivas para deflagração de processo revolucionário, leiam-se cultura da população para aceitar a ideia da dominação e lutar contra ela. Josef Stálin havia pago um preço muito alto pelo pioneirismo, que além de tudo era agravado por divergências internas e pela morte inesperada de Lênin. Então foi quando ele resolveu fazer uso enérgico da força, para dar sustentabilidade à Revolução e fazer valer o ideário socialista.

No caso da China, Mao Tsé Tung, o Timoneiro, se beneficiou do exemplo russo que lhe foi de muita utilidade. Mesmo assim, ele ainda foi obrigado a fazer uso da sua autoridade durante o processo de consolidação da revolução chinesa, que também não foi nada fácil. Mao, tirou partido inclusive dos erros da Rússia em relação às condições subjetivas e resolveu parar toda China pelo longo período de dez anos, para promover uma Revolução Cultural com a participação de todo povo chinês que também não foi pacifica, mas nem por isso deixou de existir e gerar bons frutos apesar de profundamente criticada ainda hoje. (aqui)

O pioneirismo sempre é permeado de erros possíveis de correção, de modo a não se repetirem. Um grande exemplo do que aqui afirmamos são os erros que foram cometidos na primeira Revolução Industrial na Inglaterra, que não voltaram a se repetir por ocasião da 2ª Revolução Industrial da Alemanha.

As lideranças políticas e o povo chines, tiveram a sabedoria de compreender e aceitar sem resistência, as decisões que foram propostas pelo Timoneiro Mao Tse Tung e nesse aspecto foram muito mais racionais do que os soviéticos com relação a Stálin. Na China, os líderes do politiburo não estimularam o surgimento de cizânias por parte de alguém que desvirtuasse os rumos da revolução como ocorreu na URSS com Khruschev. Essa harmonia de pensamento no caso da China certamente contribuiu para o alcance de resultados muito mais positivos e duradouros do que na Rússia.

O Brasil, ao fazer opção por um modo econômico de desenvolvimento liberal capitalista, totalmente subordinado aos ditames do mercado, ao debutar no neoliberalismo ditado pelo Consenso de Washington, o fez com uma voracidade incomensurável. No governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o mesmo que recomendou que esquecessem tudo quanto ele havia escrito, aconteceu a privatização de vários ativos nacionais estratégicos, o início do processo de desindustrialização, além da quebra do monopólio estatal da Petrobras, que hoje em dia está fazendo muita falta.

Embora tais medidas tenham contribuído para o controle inflacionário momentâneo e para uma leve estabilização macroeconômica, elas tiveram como efeito colateral, a fragilização da indústria nacional. Como observa Luís Carlos Bresser-Pereira, um economista liberal heterodoxo, a ausência de uma política cambial competitiva e de uma estratégia industrial consistente, levou à chamada “doença holandesa” e à perda de densidade produtiva.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro caiu significativamente na década de 1990 e 2000, evidenciando um processo acelerado de desindustrialização precoce.

No tocante ao capital humano e ao sistema produtivo a engrenagem do desenvolvimento dos dois países foi também diferenciada. Tanto China quanto o Brasil investiram, em graus distintos, na formação de capital humano. No entanto, como argumenta Joseph Stiglitz, o desenvolvimento não depende apenas da educação, mas da capacidade de integrá-la a um projeto produtivo.

A China gradua atualmente entre 4,4 e 5 milhões de engenheiros e matemáticos por ano e mesmo dispondo exército numeroso de técnicos qualificados, trabalhando em tempo integral nos programas de governo, agora pretende acelerar os doutorados e apurar as diversas especialidade, para inseri-los em um nicho que demanda inovação e produtividade. No Brasil, a desconexão entre formação acadêmica e estrutura produtiva, além de desestimular os jovens, limita e contingencia o impacto desses investimentos por orientação do mercado.

Um dos pecados capitais da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, foi exatamente nesse ponto. Apesar do seu elevado nível educacional, a rigidez institucional impediu a conversão do conhecimento em dinamismo econômico, contribuindo para sua crise estrutural.

No aspecto da soberania e inserção internacional a diferença entre os dois modelos também se expressa na forma de inserção na economia global.

Enquanto a China adotou uma estratégia ativa, negociando sua abertura, exigindo transferência tecnológica e protegendo setores estratégicos, o Brasil, em muitos momentos, assumiu uma postura passiva, adaptando-se às regras do sistema internacional sem capacidade equivalente de influenciá-las. Como argumenta com muita propriedade Celso Furtado, o subdesenvolvimento não é uma etapa, mas uma condição estrutural que tende a se reproduzir na ausência de políticas deliberadas de transformação. Concluímos que a análise comparativa entre China e Brasil revela que o desenvolvimento econômico é inseparável da existência de um projeto nacional consistente, sustentado por um Estado capaz de planejar, coordenar e induzir mudanças estruturais.

A China demonstrou que é possível combinar mercado e planejamento, abertura e soberania, crescimento e transformação estrutural. Ao fazê-lo, não apenas superou sua condição inicial de atraso, mas reposicionou-se como protagonista central da economia mundial.

O Brasil, por outro lado, ao privilegiar uma inserção passiva e ao reduzir o papel estratégico do Estado, comprometeu sua capacidade de desenvolvimento autônomo, tornando-se mais vulnerável às dinâmicas externas.
Dessa forma, o contraste expresso no título deste ensaio não é meramente retórico, mas profundamente real:

quem planeja constrói o próprio destino; quem apenas reage, submete-se ao destino construído por outros.
A questão que se impõe, portanto, não é apenas compreender o passado, mas decidir o futuro. Em um mundo marcado por disputas tecnológicas, transições energéticas e reconfigurações geopolíticas, resta ao Brasil escolher entre continuar reagindo ou, finalmente, assumir o desafio de planejar.

 

🎧 Entre escolhas e caminhos, o futuro não espera — ele se constrói.

 

 

 

 

 

 

 

Referências:
Manifesto Do Partido Comunista – Edição Especial
10 Dias que Abalaram o Mundo-John Reed- Amazon.com.br;
Primeiro eles tomaram Roma Jones Manoel – Pesquisa Google;
A Batalha pela Memória: Primeiro Livro de Jones Manoel;

Fotografias:
Instagram;
A Grande Crise de 1929: O Colapso Financeiro que abalou o Mundo – Blog Edmar Lyra;
Países que formam mais engenheiros no mundo em números absolutos – Pesquisa Google;
Questões sobre a Economia da China – InfoEscola;
Comparação das economias da china e do brasil em 2025 – Pesquisa Google

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