Entre Sombras e Luz

Por: Mirtzi Lima Ribeiro

Onde há um ser humano, encontraremos inúmeras formas de pensar, de compreender, de agir e interagir. Se olharmos os registros disponíveis que relatam a história do mundo na linha do tempo, encontraremos padrões, ondas que chegam, vão e voltam, em uma repetição de padrões, que variam em grau, densidade e importância.

Há períodos mais sombrios, em que o conhecimento – junto com a inventividade, o novo, a pesquisa, a ciência, o debruçar sobre inovações -, não são bem-vistos e se tornam motivo de perseguição ou então, são banidos.

Houve época em que livros foram queimados ou catalogados como proibidos, perniciosos e perigosos. Nesse tempo, tudo o que tentava romper com essa proibição, entrava na lista de punições, e em certos casos, prisão, tortura e morte.

Paradoxalmente, intercalando períodos de trevas, observamos uma explosão de conhecimento, um irromper e o transbordamento do processo criativo, a ressurreição do conhecimento que retoma com acréscimos de novos pressupostos e descobertas.

Isso nos remete à compreensão de que, enquanto se buscava esconder o sol, muitos continuaram em segredo o seu trabalho e a sua imersão no estudo, na pesquisa, na escrita, na arte, na ciência, na busca do desconhecido, assim como investiam em amplificar seus alcances e sua compreensão.

Nesses intervalos em que há iluminação, quando pensamos que a humanidade vai promover um salto de qualidade a um patamar mais elevado, vem um retrocesso que objetiva cortar esse avanço, com a imposição de velhos e obsoletos padrões, com tentativas de barrar o que de vanguarda já havia sido alcançado e com a finalidade de conservar ou resgatar a hegemonia, os preconceitos, os elitismos e o que já deveria ter sido banido da vida em sociedade.

 

Geralmente, são observados progressos quando esses períodos sombrios já trouxeram desgaste e opressão além do que o povo conseguia suportar. Eles chegam como apelo crucial para sair do torpor e de toda falta e escassez que esses tempos obscuros carregam. É quando o povo ganha força para gritar, protestar, se insurgir em relação a esse status quo degenerado e trevoso.

Os períodos férteis em ideias, conjunção de propósitos saudáveis, convergência de ideais agregadores, de uma maior cognição, expansão e disseminação de luz, poderão ser identificados como tempos de bonança e de engrandecimento para a humanidade.

Sempre imaginei que o crescimento da sociedade no aspecto coletivo, se dá lentamente. Se eu fosse apresentar um infográfico a esse respeito, eu imaginaria o movimento de uma espiral suave em posição ascendente e continuada.

Crescemos de modo heterogêneo, porque a humanidade ainda não alcançou a compreensão de que a união e o seguir numa mesma direção, incrementa a rapidez do processo e o torna mais consistente.

Ainda temos um pensamento muito hierarquizado, em um sentido vertical muito íngreme. No entanto, o próximo patamar já pode ser vislumbrado, que é a visão orgânica e de holarquia. O que vem a ser isso? Em linhas gerais, uma holarquia é uma estrutura mais maleável, formada por hólons, que são unidades que simultaneamente são um todo em si mesmas, e que ao mesmo tempo, compõem em paralelo um todo bem maior.

Quem traçou as características e o conceito desse termo? Foi Arthur Koestler (1905/1983), jornalista, escritor e ativista político, judeu húngaro radicado no Reino Unido. Quem vem disseminando as premissas desse modelo se chama Ken Wilber (nascido em 1949), famoso pensador e criador da Psicologia Integral.

No conceito de holarquia estamos diante de um grande avanço em relação à hierarquia, cujo modelo é antiquado, tem base no autoritarismo e é construído verticalmente de cima para baixo. Por sua vez, a holarquia é uma estrutura que se relaciona com outras estruturas, de modo inclusivo e transdisciplinar. Nenhum dos hólons domina outros hólons, mas os contém e há uma interdependência entre eles, pressupondo o conceito de parceiros ou agentes em cooperação mútua.

A palavra hólon se origina do grego “holos”, que significa “todo”. Ao acrescentar o sufixo “-on”, que significa “parte”, temos as partes do todo ou o todo em suas partes – como circuitos integrados.

Nesse entendimento, observamos a suavidade, a cooperação, a parceria e a integração das partes envolvidas. E isso, embora atualmente possa parecer uma utopia, na prática já existe e será um conceito empregado na sociedade, em entidades, quer sejam públicas ou privadas. Essa é a tendência a ocorrer ainda em meados do século atual, para se tornar comum em séculos seguintes.

Encontramos um embrião desse pensamento em alguns tipos de entidades. Uma delas, que aqui ressalto, já vem despontando e se trata dos BRICS, onde se vê três pilares dessa vertente:

1) autonomia e integração – princípio do hólon;

2) redes de cooperação sem subordinação – sem que um ente seja superior a outro ente, e,

3) emergência de propriedades coletivas – união de potencialidades e capacidades, um complementando a demanda dos demais naquilo que possuem ou podem realizar.

Os BRICS funcionam de modo semelhante a uma holarquia, porque é um ecossistema onde a soberania individual (o “todo” de cada nação) coexiste com a cooperação coletiva (a “parte” do bloco), gerando uma estrutura complexa, adaptável e multipolar, de trocas de acordo com as capacidades de cada uma delas.

A passagem do conceito de hierarquia para holarquia será um dos efeitos da iluminação que estaremos por constatar daqui para frente, é uma quebra do conceito de hegemonia e de supremacia. Tão logo emergirmos dessa atual fase de trevas e escuridão, que pretendeu o retrocesso no processo civilizacional, esse e outros conceitos de vanguarda nortearão nossa sociedade.

 

Para acompanhar a leitura, “O Silêncio”, de Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown: um convite a escutar a vida que pulsa antes das palavras e a reconhecer os vínculos entre tudo o que existe.

Curadoria – Gorette Wanderley

 

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