Por: Antônio Henrique Couras
Olá, caro leitor. Há quanto tempo não nos vemos assim, de perto? Pois é, ultimamente venho tentando melhorar meus textos, torná-los mais robustos e interessantes, mas hoje, depois de ter escapado brevemente do fundo do poço, comemorando uma leve brisa humanista e democrática que parece ter surgido no Brasil e está passeando pelo mundo, venho escrever, de forma mais intimista, um breve lembrete, minha versão de um cartaz pregado num poste.
Um cartaz intitulado “Primeiros Sinais de Alerta do Fascismo”, que chegou a ser comercializado pela loja do Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, localizado em Washington, D.C., apresenta 14 características identificadas por Laurence W. Britt, em 2003, após estudar diferentes regimes autoritários. E eu gostaria de comentar esses sinais junto com o leitor.

1. Nacionalismo intenso e contínuo.
2. Desprezo pelos direitos humanos.
3. Identificação de inimigos como causa unificadora.
4. Supremacia militar.
5. Sexismo desenfreado.
6. Controle dos meios de comunicação.
7. Obsessão pela segurança nacional.
8. Associação entre religião e governo.
9. Proteção dos interesses das grandes corporações.
10. Supressão dos direitos dos trabalhadores.
11. Desprezo pelos intelectuais e pelas artes.
12. Obsessão por crime e punição.
13. Corrupção e nepotismo generalizados.
14. Eleições fraudulentas.
Hoje vejo que tive uma instrução (educação recebi em casa) em uma escola que, se permitido fosse à época, teria um grande busto de Mussolini rodeado por quadros dos generais da ditadura no saguão. O militar que era diretor da escola faleceu no último dia 25, dia de uma das eleições mais importantes do mundo contemporâneo, ao menos aqui no Ocidente. Achei um bom presságio.
O diretor, que falava sempre em termos militares, exaltava o orgulho à pátria e se referia à ditadura como revolução, era o mesmo que repreendia os meninos por usarem cortes de cabelo diferentes e parecia ser cego aos casos de abuso sofridos pelas alunas por parte dos membros da equipe.

Ali, naquela escola, sempre nos foi imbuído um grande amor à pátria. À época, sempre concordei e, ainda hoje, tenho grande amor e respeito pelo meu país. Mas, obediência cega aos líderes, disciplina e esse ufanismo descabido são coisas que realmente não me encantam.
E, vendo essa lista trazer como primeiro sinal de alerta o nacionalismo exacerbado, fico feliz ao perceber que só somos patriotas em época de Olimpíadas e Copa do Mundo. Que raramente vemos nossas bandeiras tremulando por aí. Nada daquele patriotismo à americana, com bandeiras nas casas, comércios, parques e afins.
Os pontos 2 e 3 me fazem, invariavelmente, voltar à época da minha graduação, quando, recém-saído daquela escola, ainda era incrivelmente vulnerável a discursos como o de “direitos humanos para humanos direitos”. Graças à Providência Divina, tive professores suficientemente interessados e pacientes para nos ensinar que esse é um discurso, no mínimo, cruel.

Mais ao fim da minha graduação, quando escrevia sobre o “direito penal do inimigo”, identifiquei essa tendência dos governos autoritários de sempre encontrarem inimigos responsáveis pelos seus males. São judeus, imigrantes, negros, indígenas, “bandidos”. Sempre há uma classe de pessoas contra quem as leis são escritas e que acaba se tornando o bode expiatório da sociedade.
É impossível não pensar nos EUA ao ler essa lista. Ponto após ponto, parece que, ela foi feita para falar desse país, mas os pontos sobre militarismo e segurança nacional parecem ser especialmente dedicados a eles. Um país com as maiores Forças Armadas do mundo, com os maiores gastos militares do mundo, um país que parece nunca estar fora de guerras e cujos cidadãos só podem consumir álcool aos 21 anos de idade, mas podem comprar armas em um supermercado aos 18, às vezes antes.
Quanto ao sexismo desenfreado, acredito ser um mal global. Dos países mais ricos aos mais pobres, a violência e o desrespeito às mulheres parecem estar presentes em toda parte.

Nas nossas últimas eleições, vimos como o controle dos meios de comunicação e a proteção dos interesses das grandes corporações parecem ser também uma estratégia bem americana, ainda que usando suas queridinhas empresas monopolistas das comunicações, como a Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, que, claramente, favoreceu o candidato do PL à Presidência, candidato que, minutos após a derrota nas urnas, fugiu do país amparado pela Casa Branca.
A associação entre religião e governo é um fenômeno crescente na nossa sociedade. No nosso Congresso, temos uma “Bancada da Bíblia” que se esquece de que, até 1890, a manifestação pública de qualquer fé que não fosse a católica era proibida. Uma bancada que quer, a ferro e fogo, impor sua visão de mundo e seus valores à totalidade da sociedade. Um fenômeno que, infelizmente, não é só brasileiro, mas que cresce rapidamente junto com a ascensão da extrema direita.

Vimos também, com o debate sobre o fim da escala 6×1, a questão da supressão dos direitos dos trabalhadores e o avanço da exploração do trabalho. Hoje, muitos são contratados como pessoas jurídicas, perdendo seus direitos assegurados pela Consolidação das Leis do Trabalho, documento histórico com mais de oito décadas de existência, que vem sendo dilapidado dia após dia por lobbies de empresários inescrupulosos que só pensam em explorar o trabalhador.
O desprezo pelos intelectuais e pelas artes também foi amplamente observado nas últimas eleições, quando pudemos ver apenas os “artistas” mais genéricos e irrelevantes apoiando o campo conservador, enquanto a massa dos intelectuais e grandes artistas apoiava o campo progressista. E isso não se dá de forma gratuita. O último governo conservador que tivemos desmontou a cultura em nosso país, reduzindo o Ministério da Cultura a uma mera secretaria desassistida.
A corrupção e o nepotismo generalizados ainda são chagas que afligem nossas instituições e as de tantos outros países. Das esferas mais básicas da administração pública municipal, como vemos cotidianamente nos noticiários, às mais altas esferas da República.

Por fim, as eleições fraudulentas. Dessas, há muito nos livramos. O sistema eleitoral brasileiro, hoje, é um dos mais avançados e seguros do mundo e tem uma eficiência sem igual. Mas essa ainda é uma realidade entre nossos vizinhos e em incontáveis países ao redor do mundo.
Acredito que essa lista não seja exaustiva, tampouco acredito que seja necessário abarcar todos os seus itens para percebermos a presença do autoritarismo e do fascismo nos governos ao redor do mundo. Mas ela serve como um sinal de alerta a ser observado.

Para acompanhar a leitura, “Miserere Nobis”, com Gilberto Gil: uma súplica que atravessa o tempo e nos convoca a não consentir com a desumanização.
Curadoria – Gorette Wanderley




