
Por: Neves Couras
Esta semana, assisti a uma pequena entrevista com três atores brasileiros com mais de 90 anos e que continuam atuando. Um deles fala da longevidade e faz esta pergunta: “Velho? Quem me rotulou?”
Quando ouço ou leio questões como essa, a primeira atitude que tenho é me colocar naquele lugar. Ou seja, já passei por essa rotulação: “Você é velha”. Respondi imediatamente: “Não, não sou velha. Tenho 70 anos, tenho uma mente que, graças a Deus, está em boa forma. Sou capaz de ler, escrever e fazer análises de qualquer texto que leio e de analisar perfeitamente, como economista e humanista, as questões que envolvem nosso povo e a mim mesma.”
Agradeço muito a Deus e às Equipes de Saúde Espiritual por me assistirem em meus casos mais difíceis. Se tenho alguma dificuldade de saúde em função do líquen e do lúpus, sou mais grata ainda por poder estar como estou. Ainda dirijo e sou muito consciente de que, na hora em que não me sentir segura para tal atividade, não vou insistir, por vaidade ou apenas por orgulho.

Sei que tenho uma aparência que não corresponde à idade que tenho, mas também conheço minhas fragilidades.
Aproveito ainda para dizer que estou me preparando para morar sozinha, mesmo tendo todo o apoio e carinho de meus filhos. Sei que dou trabalho a algum médico com quem vou me consultar pela primeira vez, porque me conheço. Sou muito sensível, energeticamente falando, e percebo as mudanças em meu corpo e, quando acontecem, procuro identificar qual foi a causa da mudança.
No entanto, como uma mulher de 70 anos e convivendo com muita gente da minha faixa etária, consigo me articular muito bem com jovens, como meus filhos e seus amigos. Procuro me atualizar e ainda busco aprender o que preciso.

Não abandono minhas amizades verdadeiras, pois elas me ajudam nessa caminhada. Ontem, vi um vídeo produzido no Japão e achei espetacular. Naquele país, muitos idosos vivem sós. Dessa forma, desenvolvem-se moradias para eles, realmente adaptadas às características da idade. Por exemplo, os móveis são feitos para que sua altura não ultrapasse a dos ombros da moradora ou do morador. Todos os tapetes são retirados da casa, com exceção daqueles que são fixados ao chão, para que as pontas não possam se soltar. Da cama até o banheiro, são colocadas pequenas lanternas de LED, com claridade suficiente para que o caminho fique bem definido.
Toda a medicação é colocada em caixinhas com o nome do respectivo dia, para que não haja dúvidas quanto à ingestão dos medicamentos. Eles pregam na geladeira uma foto atualizada do morador ou da moradora, assim como seus dados e contatos de parentes e médicos que o assistem.
Muitos combinam com os vizinhos que, se, ao amanhecer, alguma cortina previamente determinada não for aberta, alguém procure saber o que aconteceu.

Desde nova, não consigo ficar parada. Meus filhos dizem que, enquanto descanso, carrego pedra. Essa é uma de minhas características. Quero continuar assim. Depois da viuvez, como fiquei muito abalada emocionalmente com o que vivi antes e durante a doença de meu marido, percebi que não conseguia escrever textos muito longos e até mesmo dar continuidade aos livros que comecei a escrever e que estão provisoriamente parados. Então, resolvi fazer uma colcha de crochê para minha cama, em minha nova casa. Estou concluindo.
Acredito que, como demonstrou o Dr. Viktor Frankl em sua obra sobre o sentido da vida, precisamos ter alguma coisa à qual nos apeguemos para continuar caminhando e vivendo. Jamais devemos desistir, pois a vida, apesar de tudo, é uma bênção, e nosso corpo é o instrumento utilizado para alcançarmos o momento da partida, sabendo que jamais iremos antes da hora. Somos como soldados de Cristo. Precisamos viver até que concluamos nossa tarefa.

Para acompanhar a leitura, “Sempre se Pode Sonhar”, na voz de Paulinho da Viola: porque os anos também guardam espaço para desejos que ainda vão florescer.
Curadoria _Gorette Wanderley




