
Por: João Vicente Machado Sobrinho
Durante grande parte do século XX o petróleo foi a matéria-prima mais aspirada e mais valorada no mundo. Em torno dele gravitaram: guerras, alianças, golpes de Estado e estratégias neo colonialistas imperiais. Controlar a energia gerada pelo petróleo, equivalia a controlar o poder. No século XXI, porém, um novo ativo emerge em silêncio, menos visível que os grandes oleodutos, porém muito mais valioso; são as terras raras.
De conhecimento restrito, de fato são produtos derivados das chamadas terras raras e estão presentes em: turbinas eólicas, veículos elétricos, chips diversos, satélites, radares, mísseis guiados e em sistemas de inteligência artificial. Esses minerais tornaram-se a espinha dorsal da transição energética e de uma grande revolução tecnológica.
Nenhuma economia digital avançada, nenhuma indústria de defesa sofisticada e, nenhum projeto consistente de soberania tecnológica, pode prescindir desses derivados.

No entanto, o debate central não se cinge apenas às jazidas. Ele vai muito além disso e ocupa uma posição de destaque na cadeia de poder, construída ao redor delas. Portanto possuir reservas de terras raras, não equivale, necessariamente, a possuir poder. A história econômica tem mostrado repetidamente que: abundância de recursos pura e simples pode conviver com a dependência. O verdadeiro poder estratégico talvez não esteja na mina de onde se extrai as terras raras, mas na capacidade de transformar minério em tecnologia, geologia em indústria e recursos naturais em soberania.
É justamente nesse ponto que o refino das terras raras assume um papel decisivo. Quem domina a tecnologia do refino, controla o gargalo mais sensível da cadeia produtiva, determina fluxos tecnológicos, influencia preços, condiciona alianças e amplia capacidade geopolítica.
A pergunta que atravessa todo esse ensaio, é, portanto muito mais profunda do que parece: o poder está na mina ou no refino?
Responder a essa indagação, corresponde a discutir segurança nacional, política industrial, transição energética, disputa entre potências e o próprio sentido de soberania. Mais do que uma simples questão mineral, trata-se de compreender quem moldará a arquitetura material do futuro.

No século XXI o tema das terras raras tornou-se público e surgiu como uma nova gramática da segurança, obrigando as populações de cada país, produtor ou não, a estudá-la para assegurar a sua soberania, ou melhor se defender.
As grandes potências mundiais passaram a tratar os minerais críticos como ativos estratégicos, de modo que a segurança nacional nos dias atuais abarca: segurança energética; segurança tecnológica; segurança industrial e autonomia de suprimentos.
Nos Estados nacionais modernos, as minas de terras raras passaram a ser pensadas como infraestrutura estratégica. Os exemplos mais expressivos que podemos trazer a lume, são todos eles de países do Norte Global, tais como:
República Popular da China: uma potência emergente que se aproxima da hegemonia. Através de muito estudo, trabalho e dedicação, conseguiu o domínio não somente do processamento, mas também e o mais importante, do refino, transformando as terras raras num instrumento geopolítico poderoso;
Estados Unidos da América do Norte-USAN, têm tratado as terras raras como minerais críticos, essenciais e como um tema de defesa. Apesar de não ter o domínio suficiente sobre o refino, tem tratado os países produtores emergentes, sob intensa pressão, com o fito de se apossarem das suas reservas minerais. A obsessão possessiva de anexar a Groenlândia o Canadá e o Golfo do México são exemplos claros dessa ambição geopolítica.
União Europeia- UE: apesar de possuir alguns depósitos de terras raras em alguns países, a UE enfrenta escassez de produção local. Recentemente foram descobertos grandes depósitos na Noruega e na Suécia, no entanto a UE ainda importa entre 90% e 98% das suas necessidades de terras raras da China. Diante desse cenário não é exagero afirmar que: recursos críticos deixaram de ser apenas objetos mercadológicos, tornando-se um importante objeto de política de Estado.
A história tem nos ensinado que em termos de mineração a mina é um poder econômico incompleto. Ou melhor, nem sempre ter a posse das reservas minerais, significa poder gerar riqueza e assegurar soberania nacional.

No caso brasileiro, o nosso subsolo é abundante em recursos diversos, tais como: ouro, petróleo, nióbio, silício entre outros, pertencem à União de acordo com o Artigo 20 inciso, inciso IX da Constituição Federal de 1988. A história do Sul Global está repleta de exemplos de abundância de: minério bruto exportado; valor agregado produzido fora; tecnologia importada de volta.
É exatamente nesse ponto, que o velho padrão neocolonialista centro-periferia, reaparece. Assim a mina de forma isolada, pode ser apenas um ponto de partida e não um destino.
No refino das terras raras reside o grande cerne de toda questão, haja vista ser ele o tão ambicionado núcleo estratégico e o coração do problema. Portanto a simples extração a nível de soberania não basta, pois é no refino que o mineral bruto se torna insumo estratégico.

É evidente que quem controla: a separação química; a purificação; a metalurgia; os ímãs permanentes e os materiais avançados, controla a parte mais sensível da cadeia. Daí a relevância, como exemplo, da estratégia da Austrália e da União Europeia, experiências que podem servir de referencia para o Brasil. Minerar apenas não é suficiente e o mais importante é se capacitar para dominar o processamento.
Aspirar o mesmo sucesso obtido pela China seria utópico. As amarras impostas pelo modelo econômico liberal, ainda não vencidas e expurgadas, não permitem um avanço maior, pelo menos no momento atual. A diversidade de metodologias adotadas, tem como ponto principal, a divergência de modelos de desenvolvimento econômico.
Enquanto na China o protagonismo é uma prerrogativa indeclinável do Estado Nacional, em que abarca a gestão direta desde a mineração até o refino das terras raras, nos países liberais capitalistas o protagonismo é da besta do mercado que imobiliza a gestão. Falar em poder de estado no mundo capitalista é uma blasfêmia.
O exemplo mais recente e acintoso de fracionamento e de apetite insaciável dos apologistas do mercado, aconteceu recentemente no estado de Goiás.
O então governador do estado, Ronaldo Caiado, assinou em 18 de março de 2026, um Memorando de Entendimento com o governo dos Estados Unidos da América do Norte-USAN, visando estabelecer uma parceria para exploração de minerais críticos e terras raras. É senso comum que o governador de Goiás extrapolou nas suas atribuições constitucionais, consciente da voracidade expansionista secular dos USAN, agravada na época contemporânea no governo atrabiliário de Donald Trump.

Em relação ao fundamento e natureza desse acordo, o documento assinado nem é um contrato vinculante e nem tem força de lei.
O memorando citado, foi definido como um instrumento de “cooperação para pesquisa” e “capacitação” em um “ambiente regulatório competitivo”.
Quanto ao objetivo, o referido memorando é baseado, pasmem, na boa fé e na cooperação mútua dos USAN e é focada em: desenvolver o setor de minerais críticos em Goiás, agregar valor localmente, visando atrair tecnologia para a separação dos minérios, em vez de apenas exportar a matéria-prima; fortalecer a cooperação técnica para pesquisa e capacitação.
Além da controvérsia legal o acordo gerou um debate jurídico pois, de acordo com a Constituição Federal Brasileira, a gestão e o controle dos recursos minerais (subsolo) pertencem à União, e não diretamente aos estados. O governo federal brasileiro pontuou, por meio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que acordos com força de exploração econômica internacional são de competência federal.
No contexto dos investimentos, o memorando está ligado a investimentos norte-americanos anteriores no estado, como o caso da empresa Serra Verde em Minaçu.
Em síntese o que o governador não escreveu, mas deixou explícito nas entrelinhas, provavelmente foi: como os USAN já estão com as patas dentro de Goiás, sejam bem vindos, podem entrar e levar o que bem entenderem e quiserem!
No que concerne à valoração, podemos afirmar à luz de dados que, as terras raras são mais, muito mais valorosas do que o petróleo e isso está demonstrado no mapa seguinte com fonte padrão na ABNT:


- Elaboração própria com base em cotações internacionais de petróleo e terras raras (2025–2026).
Enfim vale o lembrete: a mina representa o acesso ao recurso; o refino representa o controle sobre seu significado econômico e político. Portanto é no refino que o minério bruto é separado, purificado e transformado em insumo tecnológico. É nesse estágio que se concentram as maiores demandas de conhecimento, complexidade industrial e poder geopolítico.
Diferentemente da extração, que pode ser geograficamente dispersa, o refino exige domínio científico, infraestrutura sofisticada e cadeias industriais integradas. Por isso, ele tende a se concentrar em poucos países, criando dependências estruturais difíceis de superar.
Não por acaso, o domínio do refino tornou-se peça central das estratégias nacionais. A China construiu, ao longo de décadas, uma posição dominante nesse segmento, convertendo capacidade industrial em instrumento de influência global. Em resposta, países como a Austrália e blocos como a União Europeia; passaram a investir na internalização dessas etapas críticas, buscando reduzir vulnerabilidades e recuperar autonomia estratégica.
O que está em jogo, portanto, não é apenas quem extrai, mas quem transforma. Porque, no limite, quem controla o refino não apenas participa da cadeia produtiva — define suas regras, seus fluxos e seus limites.
É por isso que, na economia contemporânea, a mina pode gerar riqueza, mas é o refino que organiza o poder.
O que cabe nesse momento ao povo brasileiro, verdadeiro dono do solo e do subsolo do país, é exigir do presidente Lula a criação de uma Empresa Estatal, nos moldes da Petrobrás para gerir esse grande tesouro, desde a mina até o refino e assegurar nossa soberania sobre os ativos nacionais.

🎧 Entre minerais, tecnologia e soberania, talvez a pergunta decisiva continue sendo humana: o que faremos com o poder que estamos construindo?
Referências:
O que são terras-raras e por que elas despertaram interesse dos EUA no Brasil | VEJA;
Serviço Geológico do Brasil esclarece dúvidas sobre potencial do país para terras raras e minerais estratégicos – SGB;
Terras raras, minerais estratégicos e críticos: entenda as diferenças | Agência Brasil;
Fotografias:
Conheça os minerais de terras raras – Portal da Mineração;




