A casinha construída de barro com muito esmero

Por: Neves Couras

Durante o mês de março, dedicado a nós mulheres, acredito ter cumprido meu papel neste espaço que já faz parte da rotina de muitos leitores que conquistamos ao longo desses quatro anos. Agradeço imensamente a Gorette e a João por ter nos oferecido esse espaço tão importante.

Escrever em si não é tarefa fácil, mas publicar neste país que ainda precisa valorizar tantos talentos é muito mais difícil. São editoras que não se interessam, são custos astronômicos para publicações independentes e, pior, não temos o hábito da leitura. Nem todos têm a oportunidade que estamos tendo neste site. Gratidão, amigos.

Hoje, gostaria de falar apenas das mulheres que ficaram a “costurar” ou a “rebocar” seu interior para poder dizer que estão curadas.

Esse, não é um processo fácil, tampouco rápido. A nossa parte interior, cheia de tantos sofrimentos guardados, as vezes estão tão escondidos que não conseguimos acessá-los. Na linguagem do computador, abrimos “pastas” e dentro delas vários arquivos. Há autores que nos orientem a não remoer o passado, mas acredito que é justamente revendo o passado que recomeça o nosso processo de cura, revendo o passado é importante trazer à tona a raiva o ódio a angustia… Se não mexermos nestes pequenos arquivos como iremos refazê-los?

Usei a imagem de uma casinha de barro coberta com telhas, também de barro ou argila. Me vi esta semana, pensando na simplicidade da vida de quem tem pouco para carregar. E, esse pouco, é pouco mesmo.

À medida que você identifica uma ferida interna, a parede que se fragilizou e, precisamos buscar argila, prepará-la com carinho com o sentimento de quem consegue ver que aquele buraquinho pode ser coberto pois ele não nos traz mais a sensação de dor.

A casinha, esse nosso corpo tão complexo, não foi feito para sofrer e ficar doente. Estou a mais de dois anos tentando identificar cada buraquinho de minha casinha e, por último, no telhado, para finamente abrir as portas do meu coração e dizer que me curei! Minha casinha foi toda recuperada.

Chamo de casinha porque nosso corpo é nosso paraíso, nosso templo de amor. Se ficou saudades, que seja apenas de grandes momentos vividos numa rede, olhando para as estrelas e tomando uma boa taça de vinho.
Ouvi uma história do Zen que contava que, certa feita, o aprendiz e o Mestre estavam à beira do rio, muito quietos e silenciosos, características deles, quando o aprendiz pergunta para o Mestre:

– Mestre o que é mais forte, a água ou a pedra?
O Mestre respondeu:
– Observe um pouco mais – a pedra está neste mesmo lugar nem sabemos a quanto tempo; a água passa silenciosamente sem entrar em confronto com a pedra. Ela sabe que não existe nenhuma razão para brigar com a pedra.
– Então ela apenas contorna a pedra e segue.


Nós humanos teimamos em seguir por caminhos que não são nossos! Sejamos inteligentes: não busquemos sofrimentos que não são nossos. Se aprendermos a contornar a pedra, ao invés de tentar tirá-la do lugar, passamos por ela em paz. Nossa mente continuará serena e tranquila.

Só quem consegue deixar o orgulho, a empáfia de lado, consegue descobrir o que é melhor para sua casinha, seu jardim florido, pode até viver sozinho, mas a paz que ele conquistou não o deixa entrar em guerra, e aprenda a não trazer quem quer guerrear com você. Essas energias não te pertencem mais.

Só dê atenção a quem te busca, não esmole sentimento de ninguém. Quando alguém se afasta de nós, não somos mais importantes para ele ou ela, assim sigamos nossa vida, fazendo de nosso corpo uma casinha perfumada, tendo um bom chá para tomar e mesmo que suas companhias sejam o gatinho, os pássaros que cantam e encantam a cada amanhecer do sol.

Ao anoitecer, estaremos acompanhando o por sol que nos deu luz e brilhou para todos indiscriminadamente. Ainda que estejamos sós em nossa casinha com todas os buraquinhos que foram feitos aos longos dos anos, ainda que não tenhamos força ou até mesmo coragem para reparamos, seremos felizes se soubermos que o maior amor no mundo deve ser àquele que temos a nós mesmos.

 

👉 Ao final, permita-se ouvir “Ai Que Saudade D’Ocê”, com Elba Ramalho… e deixe o coração encontrar repouso.

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