
Por: João Vicente Machado Sobrinho;
A Religião tem servido de lenitivo e abrigo ao gênero humano, desde os primórdios das mais diversas civilizações. O seu surgimento trouxe junto com ela, uma grande interrogação sobre o mistério da vida, sobre a necessidade de um sentido para ela e sobre o medo da morte. As primeiras interrogações do gênero humano, sobre o sentido da vida, foram revestidas por um véu que albergava também: hierarquias, símbolos, dogmas reveladores de caminhos éticos, que obscurecem o alcance e a amplitude da consciência humana.
Não é nosso propósito julgar ou colocar sob dúvidas a fé de outrem. Muito menos negar a sua legitima espiritualidade. A nossa intenção é apenas levantar o véu que divide a vida humana entre o mundo material e a sacralidade que, além de tudo, legitima a religião como uma instituição milenar de poder. A dicotomia entre a fé que emancipa e o véu que aliena, foi alimentada ao longo do tempo por uma caminhada repleta de submissões, de rebeldias, de consolos e resistências.

Não tratamos aqui da alienação religiosa com o intuito de atacar a crença de quem quer que seja. O nosso propósito é questionar os sistemas simbólicos que, ao sacralizarem a desigualdade, transformaram o sofrimento em virtude e a resignação em mérito. A pergunta que não quer calar, é: se a religião é boa ou má, a quem ela serve e, quando ela deixa de servir à consciência humana!
Na contra mão da ideia de unicidade religiosa, existem crenças e divindades várias que abarcam desde o monoteísmo -a crença em um único Deus – ao politeísmo – a crença em vários deuses – além das religiões não teístas – que têm por base apenas a razão e princípios éticos- filosóficos.
Na Europa, nas Américas e no Oriente Médio predominam as religiões monoteístas tais como:
. Cristianismo: Segundo as estatísticas, em termos numéricos, o Cristianismo é a maior religião monoteísta do mundo, sendo majoritária nas Américas e com uma presença expressiva na África. Cultua um único Deus como Criador e tem na figura de Jesus Cristo, o epicentro da fé.
. Islamismo: numericamente é a segunda maior religião monoteísta do mundo e predomina no Norte da África, em partes da Ásia e no Oriente Médio.
. Judaísmo: É uma das religiões monoteístas mais antigas do planeta e se baseia na crença de Deus e do Torá–os primeiros cinco livros da Bíblia Hebraica– como texto sagrado. Tem praticantes espalhados por todo mundo ocidental, que vão desde as Américas até Israel, e a Europa.

. Religiões politeístas: fazem parte das culturas antigas da Grécia e de Roma, e tinham a Mitologia como norma e os panteões dos deuses e deusas- Zeus, Hera, Poseidon, Atena, Ares, Demeter, Apolo etc.
Os seus deuses supremos eram Zeus (Deus dos homens) e Hera. (Deusa das mulheres) Os demais deuses governavam diferentes esferas de atividades humanas, cada um no seu quadrado.
A despeito de tudo isso é importante perceber que a fé prevaleceu, antes mesmo da tessitura do véu ritualístico, que iria cobrir a sacralidade que nascia, diante da perplexidade, do mistério da vida e do medo da morte. A tradição do uso do véu nos templos católicos, teve como embasamento as palavras de Paulo, o apóstolo pós mortis do Cristo. Disse ele:
“Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem. Com efeito, o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado para a mulher, mas sim a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer o sinal da submissão sobre sua cabeça, por causa dos anjos (1Cor 11, 7-10).”
As palavras de Paulo, foram proferidas em uma época de vigência plena da sociedade patriarcal, constituindo-se num grande salto, do sagrado ao dogma. A fé assumiria a partir de então uma forma normativa e os dogmas se transformariam em instrumentos de estabilidade e controle sobre mais ou menos a metade da população mundial que era feminina.
Como a ação de dividir foi sempre a forma mais adequada de dominar, o véu passou a definir o poder religioso, instituindo a hierarquia masculina. Foi nesse estágio que a autoridade e obediência patriarcal foi imposta, com a religião legitimando a ordem social, em verdadeira aliança entre o trono e o altar, passando a justificar a desigualdade, (pasmem) como obra divina. Estabeleceu-se assim a promessa da conquista do além, a troca da negação do hoje.
Diante do adiamento da justiça o sofrimento passou a ser encarado como a pedagogia da submissão. Com o véu encobrindo a consciência a alienação religiosa passou a predominar sobre a razão crítica. O sentimento de culpa, o medo e o controle moral inibiram definitivamente o pensamento autônomo, convertendo a fé em mercado ideológico. Em pleno século XXI, estão aí: o Neopentecostalismo, a política e a manipulação, transformando a religião num produto e vendendo o céu à prestação.
A cisma na Igreja Católica, a rigor a dissidência de Lutero e Calvino, principalmente desse último, veio para inviabilizar e temporariamente postergar toda tentativa de devolver a fé ao indivíduo.
A teologia da Libertação nascida no seio da igreja católica no século XX, foi uma tentativa promissora de alinhar a igreja com o Evangelho do Cristo, comprometida com a justiça social. Seus expoentes máximos foram os Papas João XXIII e Francisco.
O que o livre arbítrio conferido pela divindade ao gênero humano aspira, é apenas a fé como escolha e nunca por imposição e uma espiritualidade sem submissão.

Por fim, temos em mente que a religião não é, em si, uma alienação, E por natureza tampouco é libertação. Poderá ser uma ou outra, a depender do uso que dela seja feito. Quando a religião serve para interditar o pensamento, para justificar as injustiças e para domesticar consciências, ela se converte em véu espesso e pesado, que obscurece a dignidade humana. Quando, ao contrário, ela inspira ética, solidariedade, justiça e compromisso com a vida concreta, ela poderá ser uma grande força de resistência e de emancipação.
A história humana está aí à disposição, para provar que, o maior conflito não se dá entre fé e razão, mas entre consciência e submissão. Rasgar o véu pesado da inconsciência, não significa de forma alguma destruir o sagrado, mas apenas devolvê-lo ao seu legitimo lugar — o da experiência íntima, livre e responsável–. Uma sociedade madura nunca irá exigir a negação da fé, mas recusará quaisquer formas de sacralização da desigualdade e da ignorância.
Entre o véu e a fé, o destino da humanidade sempre será uma escolha. Este escrito é um convite para que essa escolha, com a ajuda divina, seja feita com lucidez.
Referências:
Box Reformadores 3 Livros -Martinho Lutero e João Calvino Livraria Com Cristo;
O Ente e a Essência -Santo Tomaz de Aquino Edição Bilíngue | Amazon.com.br
A teologia por trás do uso do véu na Igreja;
O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – Lafonte;
Fotografias:
IV Bimestre: 3° Ano Ens. Médio – FILOSOFIA, SOCIEDADE E RELIGIÃO;
(11) Grécia: Origens – A religião politeísta grega era marcada por uma… | Facebook;
Reforma Protestante: As 10 diferenças entre Martinho Lutero e João Calvino – Guia-me;
João XXIII e Papa Francisco – Pesquisar Imagens;




