Café e cacau contra o garimpo

Por: Antonio Henrique Couras;

Em algumas aldeias do sul de Rondônia, o som que hoje marca o ritmo da vida cotidiana não é o das motosserras nem o dos motores de balsas de garimpo. É o de grãos sendo secos ao sol, de sacas sendo pesadas, de reuniões comunitárias discutindo preço, qualidade e escoamento da produção. Em vez de pepitas de ouro ou toras de madeira, o que circula ali são grãos de café robusta e amêndoas de cacau.

A cena pode parecer banal à primeira vista. Mas, na Amazônia contemporânea, ela carrega um significado político profundo.

Nos últimos anos, povos indígenas da Terra Indígena Sete de Setembro, que abrange áreas de Rondônia e Mato Grosso, passaram a investir de forma sistemática na produção de café e cacau como estratégia econômica e territorial. O objetivo não é apenas gerar renda. É oferecer uma alternativa concreta para jovens que, sem opções, acabam sendo aliciados por garimpeiros, madeireiros ilegais e atravessadores.

A lógica é direta e dura: onde não há trabalho digno, o ilegal se apresenta como solução.
Durante décadas, a presença do Estado nessas regiões se resumiu, em grande parte, à repressão episódica. Operações pontuais contra o garimpo, apreensões esporádicas de madeira, promessas de fiscalização. Pouco se investiu em criar condições para que as comunidades pudessem sustentar suas populações sem abrir mão do território. Nesse vácuo, a economia predatória prosperou, especialmente entre os mais jovens.

Foi nesse contexto que a produção de café e cacau começou a ganhar força.
No caso do café, a aposta recaiu sobre o robusta amazônico, uma variedade bem adaptada ao clima da região. A produção passou a ser organizada de forma coletiva, com apoio técnico, troca de conhecimento entre aldeias e, em alguns casos, parcerias com cooperativas e compradores institucionais. O café deixou de ser apenas um experimento agrícola e passou a integrar uma cadeia produtiva real, com calendário, padrões de qualidade e mercado.

O cacau seguiu caminho semelhante, mas com um diferencial importante: a tentativa de verticalizar a produção. Em vez de vender apenas a amêndoa crua, algumas iniciativas passaram a investir em fermentação adequada, secagem controlada e até na produção artesanal de chocolate dentro do próprio território. Isso amplia o valor agregado e fortalece a autonomia da comunidade sobre o produto final.

Mais do que técnica agrícola, o que se constrói ali é uma outra relação com o tempo. O garimpo promete dinheiro rápido, mas cobra um preço alto: rios contaminados, conflitos internos, dependência e violência. O café e o cacau exigem paciência. Demoram a produzir, pedem cuidado contínuo, dependem de planejamento coletivo. Em troca, oferecem algo raro na Amazônia atual: previsibilidade. Para os jovens, isso faz diferença.

Em entrevistas e relatos de lideranças indígenas, a mesma preocupação aparece repetidamente: como manter os jovens no território sem condená-los à pobreza? Como competir com o dinheiro fácil oferecido por atividades ilegais? A resposta encontrada não foi moralizar nem proibir, mas criar condições materiais para outra escolha. Quando há renda, perspectiva e reconhecimento, a cooptação perde força.

Esses projetos também desafiam um imaginário antigo, ainda muito presente no debate público, de que povos indígenas devem permanecer isolados de qualquer atividade econômica. A experiência mostra o contrário: não é o mercado em si que ameaça o território, mas a ausência de controle sobre ele. Quando a produção é pensada a partir da comunidade, com limites claros e respeito ao ambiente, ela pode se tornar uma ferramenta de proteção, não de destruição.

Há, evidentemente, desafios. O acesso a crédito é limitado, a logística é cara, a assistência técnica nem sempre é contínua. Além disso, essas iniciativas convivem com pressões constantes de grupos ilegais que não desaparecem apenas porque surgiu uma alternativa econômica. Ainda assim, o simples fato de essas experiências existirem já altera o equilíbrio de forças.

Elas mostram que a defesa da Amazônia não se faz apenas com discursos ou operações policiais, mas com economia real, renda local e futuro visível. Mostram que proteger a floresta passa, necessariamente, por proteger os jovens que vivem nela. E revelam algo incômodo para muitos formuladores de políticas públicas: frequentemente, as soluções mais inteligentes não vêm de fora, mas de dentro dos próprios territórios.

No fim, café e cacau não são apenas culturas agrícolas. São instrumentos de permanência, de autonomia e de disputa. Uma disputa silenciosa, cotidiana, travada grão a grão contra um modelo de exploração que há décadas insiste em tratar a Amazônia como terra de ninguém.

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