Por: Neves Couras;
Em algum momento de relaxamento e pensamentos que vêm e vão sobre nossa vida, fiquei a pensar, como se estivesse fazendo um balanço. Não do tipo o que é levado a um contador a fazer, colocando em colunas de ativo ou passivo, mas pensando em como algumas coisas aconteceram nestes 69 anos que se passaram.
Repentinamente, podemos sentir o quanto vivemos e o como foram vivenciados ou experienciadas essas décadas de aprendizados nesta escola chamada Terra.
Nunca fui muito de pensar em idade ou na aparência que os anos me trariam e me trouxeram. Fui vivendo. Fui a cada dia, desde pequena, fazendo o que era possível. Confesso, que mesmo após o conhecimento da Economia, nunca apliquei esse conhecimento para organizar meus dias.
As coisas iam acontecendo, muitas delas de forma dolorosas, outras nem tanto, mas sempre me foram dadas forças para seguir em frente com alegria e determinação. Depois dos conhecimentos adquiridos com a Espiritualidade, conheci porque por quem eu sempre fui tão abençoada e protegida.
Nunca fui de ter medo, nem fugir das minhas responsabilidades. Nasci numa família que as mulheres davam exemplo de força e determinação. Quanto a meu pai, era uma figura que até hoje é difícil de se decifrar. Dizemos muito que fomos nós que o criamos. Nos deu muito trabalho, e, nesta forma de ser dele, tivemos que dar mais do que receber. Mas apesar de tudo que precisamos para lidar com ele, muitas vezes raiva por sua irresponsabilidade como chefe de família, era pequeno ante tanto amor que ele nos dava, que até os netos o tinham como um herói. Sei que será é difícil compreender essa mistura de sentimentos, mas foi assim a vida inteira. O amávamos, e o muito, e pronto.
Minha Mãe foi sempre a professora. Rígida, austera e responsável. Admirada por todos. Soube nos mostrar tanta força e exigia de nós o máximo. Nós não sabíamos, mas ela sim, que precisávamos ser melhores a cada dia. Ela não permitia que um filho falasse mal do outro. Se alguém dedurava algum mal feito do irmão, todos apanhavam.
Apanhávamos mesmo. Dolorosa metodologia comum em nossa época. A amamos sempre e a respeitamos e somos gratos por tudo.
Mas o leitor deve está se perguntando por que falar disso agora? Pois é. Porque percebo que tudo que aprendi até hoje, ainda não foi o suficiente para me manter forte para o que ainda estou experenciando. Ainda me choca a desfaçatez, a mentira as traições. Traições de todas as formas. A da amizade, do respeito com a família e aqui digo, aos filhos também.
Acredito que mesmo não tendo feito planejamento estratégico para nossa vida, se vivemos a cada dia, com o coração voltado para o bem e para ser responsável com as tarefas que são colocadas em nossas mãos, teremos um final de vida organizado.
Nossa saúde obedece a um ritmo de vida que não é dissociado de nossas ações. Mas só percebemos isso, quando os sessenta chegam. Quanto a essa afirmação gostaria de lembrar que o cuidado com nosso corpo para que tenhamos uma velhice com mais autonomia, é coisa mais ou menos recente.
O bem estar psicológico falado pela Organização Mundial da Saúde e bastante propagado pelos que cuidam de nossa saúde mental e dos geriatras, ainda é tema desconhecido para muitos. Não aprendi a pensar em mim em primeiro lugar. A “ama a ti mesmo” é tão importante tão necessário, que não poderia ser visto como uma orientação espiritual, mas como um Decreto divino. Tem que se tornar um Decreto em nossa consciência.
Como tem uma geração de famosos que estão chegando ou já chegaram a essa idade, a mídia tem dado mais ênfase as questões de velhos e velhas em plena atividade e consciência de que a velhice não é fácil de ser vivida. O tema nos remete a repensar nossos atos e a forma de se amar mais, de decidir o que ainda quer viver e como viver.
Para muitos, a velhice ainda não trouxe a necessidade de um novo planejamento. Viver só ou com os filhos? Até que ponto viver só, sem amigos e sem companheiros, foi pensado para um momento que muitas vezes, queremos ser nós mesmos.
Preciso aprender a acordar a hora que meu corpo quer sem a exigência imposta por outros, ou talvez por nós mesmos. Criar a necessidade, a obrigação, de nos exercitarmos. Precisamos fazer isso, por amor a nosso corpo. Aprender ainda a sair, conversar, ler, tomar um bom vinho em minha própria companhia ou mesmo de uma boa música.
Algumas dessas atividades que coloco aqui, me foram de certa forma impossíveis de fazer por longos anos. Agora, sozinha, posso optar em fazer coisas que não conseguia anteriormente. Sair sem hora marcada para voltar, visitar alguém e conversar sem tempo marcado de voltar para casa. Coisas simples que chamo de liberdade.
Os anos de uma vida cheia de limitações e regras, além de coisas vividas que só nos diz respeito me fizeram adoecer. Quando me perguntam como estou, respondo: – me curando. Sim ainda não retomei a vida que agora sim, tenho planejado. E pensei em fazê-lo porque tenho apenas os anos que me faltam.
Não sei os dias que ainda tenho. Mas confesso que preciso de paz. Fico a olhar para as plantas de meu jardim, e conversando com elas, hoje minhas maiores companheiras de conversa, quero apenas ser mais uma que pensa em amar sem me ferir, e sem ferir, quero viver com o amor de meus filhos, meus amigos e meus e irmãos, quando possível.
Que o amor me venha sem exigências, sem peso, sem medo. Pois a cada dia, é um a menos na vida, mas um a mais para busca de um tempo sonhado e não vivido.
O passado já se foi. Que venha a beleza da idade e do aprendizado da beleza que vive a nos olhar.