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A canção rejeitada que se tornou um clássico da música popular

                                       

Por: Flávio Ramalho de Brito


Alfredo da Rocha Viana Junior, o Pixinguinha, é um dos maiores nomes da música popular do Brasil em todos os tempos. Maestro, arranjador, grande flautista e saxofonista, era também compositor admirável, autor de vários clássicos do nosso cancioneiro, dentre eles, aquele que talvez seja o maior de todos, o choro “Carinhoso”.

Em 1917, Pixinguinha compôs o “Carinhoso”, mas engavetou a música e ele próprio diz por qual razão:

“Naquele tempo, o pessoal nosso da música não admitia choro assim de duas partes (choro tinha que ter três partes). Então, eu fiz o ‘Carinhoso’ e encostei. Tocar o ‘Carinhoso’ naquele meio! Eu não tocava… ninguém ia aceitar”

Em 1928, Pixinguinha resolveu gravar o “Carinhoso” no lado B de um disco de 78 rpm da Orquestra Típica Pixinguinha-Donga. No lado B do disco sempre era colocada a menos importante das duas músicas nas antigas gravações em 78 rpm. O choro não teve repercussão nenhuma, além de ter recebido de uma revista carioca um comentário que finalizava assim; “Não nos agradou”.

No ano seguinte, Pixinguinha voltou a gravar o “Carinhoso” na direção da Orquestra Victor, novamente no lado B de um disco e com o nome de “Carinhos”. Passados cincos anos, em 1934, o bandolinista pernambucano Luperce Miranda fez um novo registro do choro, mais uma vez no lado B de um disco e com o nome de “Carinhos”.

Em 1936, um espetáculo beneficente foi organizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, pela esposa do Presidente Getúlio Vargas. Uma das artistas convidadas para se apresentar no evento foi a atriz e cantora Heloísa Helena que, na procura de um repertório, sugeriu ao compositor Braguinha que colocasse versos no choro “Carinhoso” de Pixinguinha. Segundo Braguinha,

“Procurei imediatamente Pixinguinha, que me mostrou a melodia […] no dia seguinte entreguei a letra a Heloísa que, muito satisfeita, me presentou com uma bela gravata italiana”

A letra simples, que hoje é conhecidíssima, feita as pressas por Braguinha, se encaixou, de modo perfeito, à melodia do choro de Pixinguinha tornando a canção imortal.

“Meu coração, não sei porque / Bate feliz quando te vê / E os meus olhos ficam sorrindo / E pelas ruas vão te seguindo / Mas mesmo assim, foges de mim  […]” 


  O choro “Carinhoso”, já com a letra de Braguinha, foi oferecido para gravação a dois dos principais cantores brasileiros da época, que o rejeitaram: Francisco Alves e Carlos Galhardo. Chico Alves nem se interessou e Carlos Galhardo, segundo Pixinguinha “falhou”, não comparecendo à sessão de gravação que estava marcada.

O “Carinhoso” foi, então oferecido ao cantor Orlando Silva, que não teria gostado dos versos de Braguinha e encomendou outra letra ao compositor Pedro Caetano. Mas, afinal, Orlando Silva decidiu gravar mesmo a canção com a letra de Braguinha.

No dia 28 de maio de 1937, Orlando Silva entrou nos estúdios da RCA Victor, no Rio de Janeiro, para gravar “Carinhoso” pela primeira vez em um lado A de um disco, e o lado B não era uma música qualquer. Era outra música de Pixinguinha, a valsa “Rosa”, e, segundo o grande músico: “A maioria não estava interessada em gravar o ‘Carinhoso’. Todos queriam gravar a valsa ‘Rosa’”.

O disco com “Carinhoso” e “Rosa” ajudou a firmar, definitivamente a carreira de Orlando Silva, “O Cantor das Multidões”, para muitos o maior cantor brasileiro de todos os tempos. O disco com “Carinhoso” e “Rosa” é considerada um dos mais importantes da música popular brasileira. Orlando Silva foi acompanhado pelo maestro Radamés Gnatalli no piano, Pixinguinha na flauta, Luís Americano no clarinete e Luciano Perrone na bateria. Era simplesmente impossível não dar certo.


“Carinhoso” – Orlando Silva, gravação original, 1937

https://www.youtube.com/watch?v=gmciBTsJdy4


Estima-se que, atualmente, “Carinhoso” tenha cerca de quinhentas gravações, nas mais diversas formas e línguas.


“Carinhoso” – Paulinho da Viola e Marisa Monte

https://www.youtube.com/watch?v=8IhqXDQkWpQ

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2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pela história da música Carinhoso, eu só pensava q era de Orlando Silva, agora foi q entendi, o senhor abre as portas, para as pessoa leigas entendam as verdadeiras histórias, aonde tudo começa..e vamos cantar "Carinhoso"

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