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O Poeta da alma dos sertões

Desde muito jovem, aquele caboclo alto, com voz grave, se destacara como poeta na região que envolvia os municípios de Sumé, Prata, Ouro Velho e Monteiro, no Cariri paraibano, e que se estendia pelas adjacências de Pernambuco. Aos rigores dos trabalhos na labuta dos roçados e do trato com o gado, o caboclo sempre preferira o pandeiro, o triângulo, os repentes e as cantorias. Ele tinha um sonho: ver uma música sua gravada por Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, para quem escrevera várias cartas, sem receber qualquer resposta.

Em meados de 1961, ao chegar a Sumé, foi avisado que Luiz Gonzaga se encontrava na cidade. Procurou o hotel onde Gonzaga estava hospedado e do encontro deixou um relato no seu livro “Cantadores, Prosas Sertanejas e Outras Conversas”:

– O Senhor é que é seu Luiz Gonzaga?
– Sou, por quê?
– O Senhor nunca recebeu cartas de José Marcolino Alves, não?
– Sei não. Recebo muitas cartas. O que era que diziam essas cartas?
– É porque eu tenho umas músicas de minha autoria, que acho que dão para o Senhor […]
– Depois eu posso lhe atender.

Pediu licença e saiu. Fiquei sem jeito saí tonto pela rua, ouvindo vozes de crítica pelo subconsciente. A cabeça martelando, refleti: Será que é porque eu tenho esta cabeleira grande, este chapéu de cigano, este bigode demasiado? Talvez ele pense que eu sou algum desordeiro. Pensei então em pedir que alguém me apresentasse como pessoa.

Com o auxílio de amigos que tinha na cidade, Zé Marcolino, como ele era conhecido, foi levado à presença de Luiz Gonzaga. Cantou algumas das suas músicas e, ao terminar, como ele conta no seu depoimento, “Luiz me abraçou, assanhou meus cabelos e disse: – Vou lhe levar para o Rio, comigo. Gostei de sua voz, de suas músicas”.

No ano seguinte, das doze músicas do disco que Luiz Gonzaga lançaria em 1962, seis eram de Zé Marcolino: “Sertão de Aço”, “Serrote Agudo”, “Pássaro Carão”, “Matuto Aperreado”, “A dança de Nicodemos” e “No Piancó”. O nome de Luiz Gonzaga entrou na parceira mais por conta da sua participação nos arranjos das músicas, já que elas haviam sido feitas inteiramente pelo compositor caririzeiro.

“Passando em Serrote Agudo / Em viagem incontinenti / Vendo a sua solidão / Saí pensando na mente / Eu vou fazer um estudo / Pra lhe contar a miúdo / Quem já foi Serrote Agudo / Quem está sendo no presente / Já foi um reino encantado / Foi berço considerado / Quem conheceu seu passado / Acha muito diferente / Aonde o touro em manada / Berrava, cavando o chão / Fazendo revolução / Em época de trovoada / Dando berros, enraivado / Por achar-se enciumado / Do seu rebanho, afastado / Gado que lhe pertencia”


A presença de um grande número de músicas de Zé Marcolino em um disco de um artista já consagrado como Luiz Gonzaga fez com que o compositor paraibano despertasse a curiosidade da imprensa carioca e ele foi entrevistado pela “Revista do Rádio”, uma popular publicação da época. A simplicidade de Zé Marcolino e a sua vinculação com a sua terra são expressas nas suas declarações para a revista:

“Antes de vir para o Rio, de cidade grande só conhecia Timbaúba dos Mocós […] Acho que o Rio é uma cidade grande demais. Não sei pra que tanta coisa. Vou passar um tempo por aqui e voltar logo para junto da minha mulher e os seis filhos […] “Seu” Luiz Gonzaga, na vinda aqui para o Rio apresentou-me como cantor em Paulo Afonso. Quer que eu cante aqui também. Vou ver se tenho coragem para isso”

Quando o disco de Luiz Gonzaga com músicas de Zé Marcolino foi lançado, já fazia alguns anos que a parceira do Rei do Baião com Humberto Teixeira fora interrompida. Em março de 1962, faleceu Zé Dantas, que era considerado pelo próprio Gonzaga como o seu mais perfeito parceiro. O aparecimento de Zé Marcolino, naquele momento, foi providencial. Depois das seis músicas iniciais, os discos de Luiz Gonzaga, nos anos imediatamente seguintes, sempre tiveram músicas do poeta de Sumé, entre elas “Quero chá”, “Cantiga de Vem-vem”, “Cacimba Nova” e outras que aparecem nas melhores antologias de Luiz Gonzaga.


“Cacimba Nova”, uma toada que descreve a decadência de uma fazenda dos sertões nordestinos, lançada originalmente, em 1964, foi regravada por Luiz Gonzaga, em 1981, com a participação do seu autor nas comoventes palavras e aboios finais:

“Fazenda Cacimba Nova / Foi bonito o teu passado / Ainda estás dando a prova / Pelo que vê-se ao teu lado: / Um curral grande pendido / Um carro velho esquecido / Pelo sol, todo encardido / Sentindo sem paradeiro / Falta de juntas de bois / Que lhe levaram, de dois / Obedecendo ao carreiro […] Quem te vê, vai suspirando / Lamentando cada instante / Vendo o tempo devorando / O teu passado brilhante / Mas, rogo a Deus para um dia / Reinar-te ainda alegria, / Paz, sossego e harmonia / Voltando a felicidade / Que um sentimental vaqueiro, / Passando no seu terreiro / Solte um aboio de saudade!”

Zé Marcolino foi um daqueles grandes artistas populares que surgem nos grotões do Brasil real. Conforme depoimento do poeta e jornalista Astier Basílio, um dos temas preferidos do poeta campinense Orlando Tejo (o autor de Zé Limeira, o Poeta do Absurdo), era falar do amigo Zé Marcolino, de sua genialidade:

“Tejo contava que Marcolino compunha letra e melodia, como um repentista, no ato, no arranco do momento. Disse que, quando compunha, os seus olhos se cruzavam num transe, ele começava a batucar com os dedos e em poucos minutos uma pequena obra-prima era gestada. Uma poesia lírica, pura, um retrato sem retoques da alma sertaneja e nordestina”.

Apesar da sua pouca formação escolar, Zé Marcolino tinha uma grande habilidade na construção poética, às vezes utilizando-se de termos rurais que podem até parecer estranhos aos citadinos, como no caso de “Pássaro Carão”: “Pássaro Carão cantou, / Anum chorou também, / A chuva vem cair no meu sertão, / Vi um sinal, meu bem / Que me animou também: / Ainda ontem, eu vi / Pólvora no chão”. Na letra do baião “Pássaro Carão”, além da citação dos cantos dos pássaros da região, Carão e Anum, aparece o mosquito Pólvora, que surge nas primeiras chuvas e que, na experiência sertaneja, é anunciador de um ano de bom inverno.

Depois do seu “estouro” como compositor, Zé Marcolino retornou para a Paraíba, assumindo-se como o “Matuto Aperreado” da sua música, o matuto que queria voltar para o seu lugar, “por motivo de eu não me acostumar / com coisinhas que não tem na minha terra / e aqui vejo toda hora sem parar”. No início da década de 1970, Zé Marcolino mudou-se para Juazeiro, na Bahia, onde tentou levar, sem sucesso, um empreendimento comercial. E, por fim, se fixou, em definitivo, na cidade pernambucana de Serra Talhada, dedicando-se ao seu ofício de compositor e cantador. Zé Marcolino faleceu, em 1987, em um desastre automobilístico ocorrido em uma estrada no sertão de Pernambuco.

Apesar de ser detentor de um notável acervo de composições, o que faz com que ele figure entre os grandes autores da canção nordestina, Zé Marcolino tem uma produção discográfica, exclusivamente sua, diminuta. Em vida, somente conseguiu gravar um único disco, “Sala de Reboco”, em 1983, com produção e acompanhamento do Quinteto Violado. Após a sua morte, dentro do projeto Memória Musical da Paraíba, foi gravado, em 2004, o CD “Pedra de Amolar” (nome de uma música do poeta de Sumé), com participações de Dominguinhos, Marinês, Maciel Melo, Flávio José, Santanna, Quinteto Violado e outros. Em 2010, o Quinteto Violado gravou o CD “Quinteto Violado Canta Zé Marcolino”.

As músicas de Zé Marcolino continuam a ser regravadas pelos nomes mais representativos da música nordestina, como é o caso da admirável “Saudade Imprudente” (Oh! Que saudade imprudente / No meu peito martelando / Quando estou só me lembrando / Da minha vida na roça), que teve registros feitos por Dominguinhos, Quinteto Violado, Zé Ramalho e nas vozes de Petrúcio Amorim e Santanna. Mas, infelizmente, Zé Marcolino, não vem tendo o reconhecimento que é devido à sua grande obra. À medida que os anos passam, cada vez menos nordestinos que dançam ao som de “Numa Sala de Reboco” sabem o nome do seu compositor: o poeta da alma sertaneja, Zé Marcolino.

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