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Início Flavio Ramalho de Brito A segunda vida de um gênio do Brasil real

A segunda vida de um gênio do Brasil real

Para José Ramos Tinhorão, um dos mais rigorosos pesquisadores da música popular do Brasil, ele representava:

“um dos mais surpreendentes exemplos das alturas a que o puro talento intuitivo e a sensibilidade natural podem conduzir um artista do povo, apesar de todas as barreiras levantadas ante os humildes. Negro, pobre, desprovido de beleza física, educação escolar limitada ao primário e jamais integrado de forma duradoura à estrutura do trabalho (foi aprendiz de tipografia, pedreiro, pintor de paredes, guardador e lavador de carros, vigia de edifícios e contínuo de repartição pública) […] parece ter tirado de todas essas desvantagens o vigor da sua criação”.

Cartola, ou Angenor de Oliveira (como um descuidado tabelião registrou o nome Agenor), atualmente é considerado uma das maiores figuras da nossa música popular em todos os tempos. Mas, o amplo reconhecimento do valor deste grande compositor brasileiro, enquanto ele viveu, somente se deu muito tardiamente. Cartola tinha 66 anos, em 1974, quando conseguiu gravar o primeiro disco com as suas composições.

Nascido, em 1908, no Rio de Janeiro, criado no bairro das Laranjeiras, Cartola, aos onze anos, em razão de dificuldades da sua família, passou a morar no morro da Mangueira, local ao qual o seu nome está estreitamente ligado. Em 1929, um dos primeiros sambas compostos por ele serviu para que os blocos de carnaval da Mangueira se unissem em um grupo maior, formando a Escola de Samba Estação Primeira, a Escola de Samba da Mangueira. Cartola foi um dos fundadores da Escola e credita-se a ele a escolha das cores verde e rosa para o estandarte da agremiação.

Por essa época, os sambas de Cartola começaram a despertar a atenção de cantores que estavam em evidência no momento, como Francisco Alves e Mário Reis, que o procuravam para “negociar” as suas músicas, prática comum naqueles tempos, como o próprio compositor relatou em uma entrevista a um jornal carioca:

“O Mário Reis veio aqui no morro. Ele chegou com um rapaz chamado Clóvis […] O Clóvis subiu pra falar comigo, mas o Mário ficou lá embaixo […] Chegou dizendo que o Mário queria comprar um samba meu. Pensei que ele estava maluco. Como, vender samba? Clóvis disse que era pra o Mário gravar e tanto insistiu que eu acabei descendo e cantando um samba pra ele […] Pergunta quanto eu queria. Fiquei sem resposta. Ia pedir cinquenta mil-réis, mas o Clóvis cochichou pra eu pedir quinhentos. Aí eu pedi trezentos. E ele me deu […] Logo em seguida eu gravei ‘Não faz, amor’, ‘Tenho um novo amor’, Divina Dama’ […] tudo com o Chico Alves, pelo mesmo preço. Comecei a ficar conhecido lá embaixo, comecei a fazer negócio. Mas eu só vendia os direitos de disco, exigindo que o meu nome saísse como compositor”.

Na década de 1930, Cartola compôs sambas que se tornariam clássicos da música popular do Brasil como ‘Divina Dama’, ‘Fita meus olhos’, ‘Não quero mais amar a ninguém’, tornou-se companheiro de noitadas e parceiro de Noel Rosa (com quem fez três músicas) e compositor gravado pelos principais intérpretes da época, como Francisco Alves, Mário Reis e Carmem Miranda.

Em 1940, quando da vinda do renomado maestro Leopold Stokowski ao Rio de Janeiro, o compositor Villa-Lobos levou ao navio Uruguai, em que o regente viajava, um grupo de músicos populares para uma sessão de gravação em um estúdio instalado na embarcação. Pixinguinha, Donga, Luís Americano, Jararaca, o paraibano Ratinho e Cartola faziam parte do grupo. Segundo Cartola, Villa-Lobos o havia conhecido em uma festa no início dos anos 1930: “Ele foi logo com a minha cara. […] Villa-Lobos era uma espécie de meu padrinho. Me convidava pra tudo que era programa”.

A gravadora norte-americana Columbia lançou nos Estados Unidos as gravações que foram feitas por Stokowski em um disco com o título “Native Brazilian Music”. Cartola participa do disco cantando “Quem me vê sorrindo”, um dos melhores sambas do compositor da Mangueira. Este foi o primeiro registro da voz de Cartola em um disco. Quarenta anos depois das gravações de Stokowski e três dias antes da morte de Cartola, que se encontrava muito doente em um hospital do Rio, o poeta Carlos Drummond de Andrade publicou, no ‘Jornal do Brasil’, a crônica ‘Cartola no moinho do mundo’:

“Ao gravar seu samba ‘Quem me vê sorrindo’ (com Carlos Cachaça) o maestro Stokowski não lhe fez nenhum favor, reconheceu, apenas, o que há de inventividade musical nas camadas mais humildes de nossa população”.

Nos anos de 1941 a 1947, a Portela ganhou seguidamente o concurso das Escolas de Samba no Rio de Janeiro. Esse período coincidiu com o começo de um sumiço de Cartola. No carnaval de 1947, o samba ‘Onde estão os tamborins’, de Pedro Caetano, traduzia aquele momento da Mangueira e do seu principal compositor: “Antigamente havia grande escola / Lindos sambas do Cartola / Um sucesso de Mangueira / Mas hoje o silêncio é profundo / E por nada deste mundo / Eu consigo ouvir Mangueira”.

O que teria acontecido com Cartola? Trinta anos depois, em um depoimento para um jornal do Rio, ele respondeu: “eu andei doente, depois perdi minha primeira mulher e acabei me metendo num negócio aí que nem vale a pena comentar […] Foi um troço que aconteceu comigo […] Eu mesmo é que me escondi de todo mundo”. Mas, em depoimento a Marília Barbosa e Arthur de Oliveira Filho para a sua biografia (Os Tempos Idos, Funarte, 1992), o compositor foi mais explícito sobre o que teria ocorrido com ele: “Eu não sumi coisa nenhuma. Eu estava era com aquela mulher. Eu larguei tudo por causa daquela mulher. Larguei até a música, deixei até de tocar violão!”.

Na realidade, a morte da primeira mulher, a doença, a bebida e, principalmente, o envolvimento com Donária, sua nova companheira, foram os responsáveis pelo sumiço de Cartola. Segundo Carlos Cachaça, parceiro e grande amigo do compositor, Donária “não era mulher pra ele, Deus me livre”. Conforme o jornalista e escritor João Máximo, ela “tinha muitos homens, alguns deles contraventores. Mas Cartola apaixonou-se, foi viver com Donária em Nilópolis, e depois no Caju. Deixou a Mangueira, largou o violão e o samba, desapareceu”.

No relato do pesquisador e escritor Sérgio Cabral, naqueles anos em que Cartola ficou sumido, “havia muita gente que achava que Cartola era invenção de alguns jornalistas cariocas ligados ao samba”, que Cartola não existia. Entre os jornalistas que, naquele tempo, se encarregavam de rememorar e exaltar o nome de Cartola estava o crítico musical Lúcio Rangel que somente se referia ao compositor da Mangueira como “O Divino Cartola”.

Em 30 de novembro de 1957, o jornalista Sérgio Porto (sobrinho de Lúcio Rangel e escrevendo como o seu heterônimo Stanislaw Ponte Preta), na página que ele mantinha no jornal “Última Hora”, em uma matéria com o título o Samba Está Passando Vergonha, Segundo Conta Stanislaw à Sua Prima Yayá”, desvendava o mistério sobre o desaparecimento de Cartola:

“E agora a nota triste: Enquanto o Rio venera Louis Armstrong (Nota do autor: o célebre trompetista norte-americano estava em excursão pelo Rio), o grande músico popular, o veterano Cartola (Agenor de Oliveira, o grande), fundador da Escola de Samba de Mangueira, campeão de muitos Carnavais do passado, homem que ainda mantém em forma a sua inspiração, compondo grandes sambas, que infelizmente não são gravados, porque Cartola não é de fazer chacrinha em corredor de Rádio, o veterano Cartola – repito – que foi compositor responsável por muitos dos grandes êxitos de Chico Alves, na subida para o estrelato, acorda anônimo em sua modesta casa de Mangueira, às 3 horas da madrugada, e vai lavar carros em Copacabana porque está desempregado.

Acontece o seguinte, Yayá: Cartola que era pedreiro de profissão e se orgulhava disso, de uns tempos para cá, devido à idade, passou a sofrer a vertigem da altura, não podendo, portanto, trabalhar na construção de arranha-céus. Foi obrigado a abandonar as empreitadas de que vivia e, para poder manter a família, arranjou um bico numa garagem de Copacabana, como lavador de carros. Toda madrugada, aí por volta das três horas, ele sai de casa, lá em Mangueira, para pegar o serviço”.

O encontro de Sérgio Porto com Cartola foi relatado pelo próprio compositor a O Globo:

“Um dia, fui tomar café num bar, e o Sérgio Porto estava lá com a turma. Eu, de macacão, todo molhado. Aquilo foi um espanto pra ele. Expliquei o que estava fazendo, e ele disse que ia me tirar de lá. E tirou”. Apesar do apoio dado a Cartola por Sérgio Porto e por outros nomes da imprensa, como o caricaturista Lan, os sambas primorosos do compositor continuavam sem ser gravados, como foi o caso de “Fiz por você o que pude”, um magistral hino de amor à Mangueira, feito naquela época, mas que só veio a ser integralmente gravado vinte anos depois.

“Todo o tempo em que eu viver / Só me fascina você, Mangueira / Guerreei na juventude / Fiz por você o que pude, Mangueira / Continuam nossas lutas / Podam-se os galhos, colhem-se as frutas / E outra vez se semeia / E no fim desse labor / Surge outro compositor / Com o mesmo sangue na veia”.

Para João Máximo, “a segunda vida de Cartola não se fez num repente”. Depois da sua redescoberta por Sérgio Porto, Cartola se alternou em pequenos empregos, até conseguir uma colocação como contínuo em um Ministério, onde, anos depois, veio a conseguir uma modesta aposentadoria. Em 1964, o compositor instalou com Zica, sua nova mulher, na área central do Rio, o restaurante Zicartola que se transformou em um reduto do samba e da intelectualidade carioca.

 

Em 1964, a cantora Nara Leão, moradora de Copacabana e típica representante do movimento da bossa-nova, resolveu incluir no seu primeiro disco três músicas de compositores dos morros cariocas: Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Keti. Apesar do samba “O sol nascerá” (parceria com Elton Medeiros) ter levado o nome de Cartola para um público jovem e universitário, o conhecimento sobre o compositor da Mangueira ainda era muito restrito. Poucos intérpretes gravavam as músicas de Cartola. Do final de 1957, quando Sérgio Porto encontrou o compositor lavando carros, até o início da primeira metade dos anos 1970, um período de cerca de quinze anos, não foram muitas as gravações de músicas compostas por ele.

Em 1974, tudo isso mudaria. O publicitário Marcus Pereira que havia criado uma gravadora, que levava o seu nome, e formava o seu catálogo com discos de caráter cultural e que não eram considerados vendáveis pelas principais gravadoras (que eram empresas multinacionais), resolveu, por sugestão do produtor João Carlos Botezelli (conhecido como Pelão), gravar um disco de Cartola. Pelão decidiu que o próprio Cartola interpretaria as suas músicas, com um acompanhamento simples, como se fosse uma roda de samba, “pandeiro, cuíca, surdo, tamborim. Tudo tocado como era. Ficava mais bonito”. Em depoimento para O Globo, Cartola disse:

“Me senti muito emocionado, quando ouvi a minha voz no disco. Eu já tinha até pensado que ia morrer sem gravar um disco. Tava até perdendo a vontade de compor, vendo que tanta gente gravava e só não chegava a minha vez. Quando o disco saiu voltei a fazer música correndo”.

O disco de Cartola, que tinha nas suas faixas canções que se tornariam clássicos da nossa música (“Disfarça e chora”, “Sim”, “Corra e olhe o céu”, “Acontece”, “Tive sim”, “Amor proibido”, entre outras) foi um dos mais premiados álbuns de música popular brasileira naquele ano, recebendo críticas elogiosas, como a de José Ramos Tinhorão no Jornal do Brasil: “Por incrível que pareça, esse disco que só a perspectiva histórica permitirá compreender, no futuro, é o primeiro long-play de um dos poucos verdadeiros gênios da música popular brasileira”.

Cartola – capa do disco de 1974

A partir de 1974 e nos seis anos que se seguiram até a sua morte, em 1980, Cartola viveu, efetivamente, de forma plena, a sua segunda vida. Gravou mais três discos, fez shows por todo o Brasil, suas músicas passaram a tocar no rádio e surgiram novas canções que se tornariam clássicos do nosso cancioneiro, como “Cordas de aço”, “Inverno do meu tempo”, “As rosas não falam” e “O mundo é um moinho”. Cartola, com todos os merecimentos, passou, afinal, a ser reconhecido como um dos maiores nomes da nossa música popular.

João Máximo, um dos grandes conhecedores do samba, escreveu sobre a genialidade de Cartola:

“Sem conhecimento formal de música, foi um grande melodista; violonista limitado, criou no instrumento sofisticadas harmonias; longe de ser um homem culto, escreveu admiráveis letras (“Cartola é daquelas criaturas que a música habita nelas”, disse Carlos Drummond de Andrade, a propósito de “O Mundo é um moinho”); pobre, passando a maior parte da vida entre os barracões da Mangueira e uma população barra-pesada, a dos anos de sumiço, foi exemplo de delicadeza e elegância […] seu desaparecimento

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