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Neocolonialismo Habitacional e Gástrico

A dominação econômica tem tentáculos que vão além do nosso campo visual e alcança todos os segmentos da nossa atividade. Ela vai “além do que possa imaginar a nossa vã filosofia” e gradualmente vai se tornando natural, se banalizando e adquirindo fé de oficio. É o velho princípio nazista de Joseph Goebbels da mentira repetida 100 vezes que acaba  virando verdade.

Se remontarmos a tempos imemoriais e fizermos um comparativo com o que é usado na música, na arquitetura, na gastronomia, no lazer, enfim no nosso dia a dia, iremos perceber uma verdadeira deturpação da nossa língua oficial e o agravamento e generalização da Síndrome de Vira-Latas, da qual falava o dramaturgo Nelson Rodrigues.

A música, no nosso entendimento, perdeu tanto em poesia como em sonoridade e hoje temos uma “melodia  única” para quantas letras aparecerem.

Por favor não nos acusem de sermos contra a evolução da música. Porque se assim o fizéssemos estaríamos com a mente engessada e fechada à evolução. Todavia, evolução musical é algo que ultrapassa etapas e se fixa num ritmo. Dali evolui para outro, sempre nos mesmos compassos. O samba acompanhou os navios negreiros e na sua comunicação visual conosco aliou a música  à dança, à percussão e ao movimento corporal gracioso.

Hoje, segundo a opinião dos críticos, especialistas e cientistas sociais o samba é mundialmente reconhecido como um ritmo brasileiro. Nem por isso o samba deixou de evoluir e originar descendentes como o baião, o maxixe e a bossa nova e até se permitir o seu casamento com o Jazz.

A arquitetura que para ser “chick” virou design, depois de passar pelo rococó o barroco e o gótico vindos com os colonizadores, encontrou na figura do artesão Antônio Francisco Lisboa, codinome Aleijadinho, o seu maior divulgador. Foi através dele e dos seus inúmeros discípulos, que as Minas Gerais se tornaram um grande reservatório histórico de artes.

Depois do período imperial o Brasil passou a ter influências da França principalmente através do famoso  arquiteto Le Corbusier que inspirou Oscar Niemayer e  o urbanista Lucio Costa, o paisagista Burle Max e o grande arquiteto João Filgueiras Lima, codinome Lelé, que era chamado  arquiteto construtor.

A coisa começou a azedar com a nomenclatura dada  aos grandes e caríssimos edifícios, aos  restaurantes e salões de beleza chick. Segundo a justificativa de alguns, por uma jogada de marketing, palavra inglesa derivada de Market, ou seja, mercado.

É uma forma charmosa de agradar ao  “refinado” paladar burguês. Ora, ora, ora, a dondoca que se preza e não vai nem ao Mangabeira “Shopping” por causa do nome também não iria comprar um apartamento num prédio de nome considerado chinfrim, como edifício Mandurí, nome de uma figura folclórica de Patos que foi talvez a inspiração de Seu Lunga.

A dondoca que se preza é cliente de um famoso  Supermercado da cidade e se nega terminantemente a entrar noutro com medo de ser vista pelas demais e ser ridicularizada como  pobre.

Em termos de restaurantes os nomes são os mais “chick” possíveis: Mirante Skybeach, Johnny Rockets, Nui 360 Erick Jacquim, The W, Reserve Garden, Sapore D’Itália, Buongustaio, Tratoria de Origem e nem o Sertão escapou: Koisas do Sertão!

Comer no Sarrabulho do Bigode la em Sousa, em Dona Maria do Bode no Mercado de Patos, No Beradero Restaurante la no beco da Praça João Pessoa em Cajazeiras, ou no restaurante Bacóra lá em Patos? Nem pensar! “eu posso ser visto(a)!”

Em se tratando da moradia, ou seja, o Lar Doce (ou seria Dulce) Lar, o “marketing” chick é o seguinte: Residencial Royal Palace, Maison Saint Louis, Liberty Tower, Chateau Montparnasse, Tours Mont Blanc, Montmartre, Mar Egeu, Mar Cáspio, Al Mare, Aquamare, entre outros  sempre povoados de  bichinhos de estimação chamados de Pets, para os quais existem até Hair para prepara-los para as festas de aniversários carissimas.  Segundo o cineasta espanhol Luiz Bunnuel, esse é “o discreto charme da burguesia.”

Um Centro Comercial da cidade não satisfeito com o nome “chick”  Shopping Center, pertencente a um cidadão que tem por  sobrenome  Alceu,  é chamado  de MEG Certer talvez porque grafando  o sobrenome do cidadão  como Elceu se torne  mais “chick” e palatável.

Nós vimos essa síndrome  chegar até à outrora paradisíaca  praia  de Jericoacoara no Ceará. Uma pousada completamente rustica, numa das praias que me parece do Pico, onde tudo é construído com material local, paredes de taipa, moveis de construção local feitos de caibros e varas.
Pois bem, a pousada margeia uma praia de mar aberto, que é dedicada à prática de esportes náuticos.
Pois bem o nome é West Sport Watter! Perceberam?

O leitor ou internauta que lê este artigo pode até pensar que estamos  fazendo humor. Estaríamos sim, se todos os nomes que citamos fossem fictícios, até mesmo os nomes exóticos grafados em português.

Concluímos com o conhecido poema do príncipe dos poetas brasileiros Olavo Bilac que na sua cronologia de vida já notava a invasão colonial da língua,  e na sequencia  com uma magistral aula de português dada pelo grande  poeta popular  Oliveira de Panelas.

A ÚLTIMA FLÔR DO LÁCIO

Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te, assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto langor, lira singela,
Que tens o tom e o silvo da procela
E o arroio da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o aroma
De virgens selva e de oceano largo!
Amo-te o rude e doloroso idioma

Em que da voz materna ouvi “meu filho”
E em que Camões chorou, no exilio amargo.
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

 

 

Consultas: Nossas observações pessoais;
A história da arquitetura no Brasil mais completa que você já viu! Dos povos indígenas até aos dias de hoje (vivadecora.com.br)

Fotografias: Patos – Paraíba – Brasil. | Edifício Milindra 7 localizado n… | Flickr;
Rococó: estilo artístico francêhttps://www.booking.com/city/br/jericoacoara.pt.html;s do século XVIII em resposta ao Barroco (todoestudo.com.br)

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