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Literatura, e o feminino na casa de Juvenal Galeno

                             Mulher é bicho esquisito todo mês sangra.
                                         (Rita Lee, 1982)

A literatura é por si e em si um substantivo feminino. Dotada de subjetividade, faz da palavra arte, mexe, transforma e transpõe do lugar habitual para o universal. É a arte de colocar em palavras os sentimentos mais profundos do ser, é uma viagem metafísica transportada através das letras num grande tapete trançado com verbos e verbetes, embelezando a vida e aguçando a sensibilidade dos descontentes com o real. É o prazer estético do impalpável, é a expressão dos sentimentos que só a poesia emprega e o romance narra, é a representação da vida comum escrita em verso e prosa para encenação de um drama baseado em fatos reais ou nos frutos da imaginação do seu criador.

Ao que parece, o tapete trançado de verbos e verbetes, bordado com letras e fonemas sobrevoou e estacionou na casa de Juvenal Galeno. Foi lá que ele encontrou um campo fértil cheio de inspiração, de livre pensamento e de ideias mágicas. Nesse universo encantador as letras criam asas para idealizarem viagens imaginarias na profundeza da alma que brotam palavras transcritas para o papel.

O feminino foi tão presente na vida de Juvenal Galeno que aos 13 anos fundou e fez circular o primeiro jornal puramente literário no Ceará, voltado ao sexo feminino. Herança deixada para suas filhas Júlia e Henriqueta Galeno.

O mundo mágico da imaginação e o transporte leve da literatura levaram Julia Galeno a lugares nunca dantes navegados, sonhos que mais tarde se tornaram realidade. O tapete literário tecido pelo seu pai o levou para Bahia, e, posteriormente para o Rio de Janeiro. Mulher de grande valor fez história e poesia por onde passou. O Salão de poesia INITER no Rio de Janeiro, agremiação por ela fundada e dirigida, hoje ostenta o seu nome: Salão de Poesia Júlia Galeno. Em seu tempo foi membro correspondente da Academia Cearense de Letras, representando a entidade junto à Federação das Academias de Letras do Brasil, com muita competência e maestria tornou-se membro da Sociedade de Homens de Letras do Brasil, é Patrona da Cadeira N° 49 da Academia Nacional de Letras e Artes. Carregou numa só bagagem a conferencista, poetisa, romancista e memorialista.

Henriqueta Galeno cresceu rodeada de intelectuais amigos do seu pai, em casa, ela e seus irmãos se divertiam entre a biblioteca e o auditório. As apresentações de saraus literários e eventos políticos aguçaram na menina a sensibilidade poética e o interesse pela política. Da privilegiada formação intelectual nasceu à educadora e literata; da atuação política do pai nasceu a feminista. Companheira inseparável do seu genitor foi Henrique Galeno os olhos e as mãos de Juvenal Galeno nos últimos anos de vida. Em sua homenagem fundou e dirigiu o Salão Juvenal Galeno, e, depois, A Casa de Juvenal Galeno. Sob a sua batuta, foi o principal Centro de Cultura do Ceará, ali foram instalados o Centro de Estudos Juvenal Galeno, a Ala Feminina e a Editora Henriqueta Galeno.

Em 1931, morre Juvenal Galeno e Henriqueta passa a se pronunciar mais enfaticamente em defesa da mulher com a tese de que o sexo feminino deveria ter as mesmas oportunidades que o sexo masculino, tanto ao acesso as profissões como a igualdade salarial. Atitudes que a tornaram assídua e respeitada nos movimentos feministas e foi ela a representante do Ceará no 2° Congresso Internacional Feminista, reunido no Rio de Janeiro, sob a presidência de Bertha Lutz, sendo referenciada pela Gazeta de Notícias com o seguinte comentário: É um dos nomes de destaque da intelectualidade feminina de sua terra, o que lhe valeu ser escolhida para representar as aspirações da mulher cearense no recente Congresso Internacional Feminista, onde se houve com assinalado brilho […]” (Jornal Gazeta de Notícias, 1931).

De volta a Fortaleza continua a luta pelos direitos da mulher, sendo membro do Conselho Executivo do Centro Feminista Cearense ao lado de Edite Braga, Suzana Alencar Guimarães, Dra. Maria Cavalcanti, Mariamelia Barros, Adília Albuquerque Morais, Alba Valdez, Isaura Memória, Maria Dutra e Abigail Sampaio, assinam e enviam um telegrama para o ao então presidente da República, Getúlio Vargas, indicando Berta Lutz para integrar a Comissão do Anteprojeto Constitucional para elaboração de uma nova Constituição para o Brasil que concedesse autonomia, alteridade e mais dignidade ao sexo feminino.

Voando na imaginação ou no tapete mágico trançado por Juvenal Galeno suas filhas fizeram poetisa, contaram e fizeram história, revolucionaram a sociedade do seu tempo e mudaram o curso da história da literatura feminina no Ceará. E como toda mulher sonhou, criou, amou e viveu as delicias e os dessabores de uma época cheia de desafios e tensões sociais.

Cristina Couto
Presidente da Academia Lavrense de Letras

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1 COMENTÁRIO

  1. Na minha efêmera passagem por Fortaleza, tive a oportunidade de conhecer e me tornar um habitué da casa de Juvenal Galeno na rua General Sampaio, mil e qualquer coisa, já que eu morava na casa de Tia Diva, também na General Sampaio 618.
    Lá eu conheci Henriqueta Galeno e fui um frequente expectador das cantorias de viola que aconteciam nos finais de semana, além dos saraus de música popular da melhor qualidade.
    Cristina Couto, com a sua capacidade narrativa me fez administrar saudades.

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