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Início Luiz Célio Rangel A velhice Fatídica chegou ( Um fato verídico)

A velhice Fatídica chegou ( Um fato verídico)

Há cerca de 15 dias um amigo com a minha idade, me contou um acontecido muito significativo, todavia muito inquietante para ele.

Tony, foi pessoalmente levar uma cesta básica para uma senhora que trabalhou por algum tempo como doméstica em sua casa.  Chegando ao seu destino, se achegou a porta, bateu palmas e chamou por Dona Maria.

Apareceu uma menina com cerca de seis ou sete anos, muito desconfiada, e lhe disse:

– “Vó Maria tá no quintal lavando roupa”.

– Por favor, peça a sua avó para vir até aqui, disse Tony.

De onde estava, a “guria” gritou à pena voz.

– “Vó Maria, tem um velho lhe chamando aqui na porta” 

Tony me contou que enrubesceu, respirou fundo, face ao choque de realidade recebido por parte daquela criança, que embora sem muito traquejo social, referendava muita autenticidade em sua rude avaliação.

Dona Maria veio ao seu encontro, com um sorriso meio sem jeito, pediu desculpas pelo “anúncio” que a neta havia feito de sua pessoa, ele entregou a encomenda, conversaram alguns minutos e  foi embora.

No caminho de volta, muito introspectivo e motivado por pensamentos ruminantes, falou para si mesmo: “Essa foi a primeira vez que ostensivamente foi nominado e reconhecido como um velho”. Ele me confidenciou que aquela breve experiência, tão inusitada e chocante, mudou sua percepção de si mesmo. A partir daquele instante estava convencido que havia chegado realisticamente a VELHICE FATÍDICA.  

Para muita gente pode até parecer uma bobagem, mas esse fato mexeu profundamente com os “brios joviais” do meu amigo, que até então se considerava um gatão de meia idade, cujo único sinal da “velhice” seria os cabelos e a barba, levemente grisalhos.

Na verdade, o tempo passa e um dia nos damos conta que o nosso corpo, nossa pele, nosso cabelo e principalmente os nossos traços fisionômicos expressos pelo rosto, não circunscrevem o perfil daquela pessoa que visualizamos no espelho por tantos anos. Todos nós mudamos, assim como tudo ao nosso redor, mas a nossa  “cabeça”, ficou estacionada na ilusória aparência das trinta e poucas primaveras.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o envelhecimento em quatro estágios:  MEIA-IDADE: 45 a 59 anos; IDOSO(A): 60 a 74 anos; ANCIÃO: 75 a 90 anos; VELHICE EXTREMA: 90 anos em diante.

O termo VELHICE, (que relaciona velho = idoso) é considerado para muitos, o ocaso do ciclo da vida. Independe de condições de saúde, graduação curricular, competências e hábitos de vida. É um evento pontual, uma experiência individual, subjetiva, mas também um evento fisiológico regulado pelos ditames do tempo.

E o pior, chega um determinado período em que se acostam a nossa velhice perdas mnemônicas, psicomotoras, sociais, culturais e as temíveis doenças da senilidade. 

Nosso organismo tem a capacidade de prevenir a acumulação de componentes “danosos” e garantir a renovação contínua de nossas células, entretanto, essa capacidade diminui com o passar dos anos. Desse modo, as células vão acumulando toxinas e/ou proteínas inúteis e assim, vão diminuindo significativamente sua capacidade de processar os glicídios e os lipídios (açucares e gorduras). Tudo isso constitui um cenário propício para o desencadeamento de doenças situacionais tais como: distúrbios  cardiovasculares, diabetes, câncer, Alzheimer, Parkinson, catarata, e outras mais.

O certo mesmo é que a nossa juventude bate em retirada a cada festa de aniversário.

O corpo muda, mas o envelhecimento do espírito dependerá do posicionamento vivencial de cada um de nós.

A mudança de padrão de vida ocasionado pela aposentadoria compulsória e a sensação de perda de utilidade social, podem ser gatilhos geradores de isolamento (sociocultural), melancolia, angústia reativa, depressão, etc.

Por mais que pareça irreal, todos nós desejamos permanecer com aparência jovial, mesmo na velhice, isso de certo modo está relacionado à vitalidade psicossomática, à energia libídica, à alegria e à vontade de viver do que parecer esteticamente mais novo.

A verdade é que, velhice e autoestima precisam andar juntas.  Quem não se preparar para envelhecer, terá grande dificuldade de viver em sua plenitude, o  ocaso da vida.

A sociedade consumista e a mídia supérflua, favorecem para que a velhice permaneça obscura, pouco aceita e compreendida. Para tanto, criam-se cognomes com sentido inversamente proporcional à realidade, tais: “melhor idade”, “juventude madura”, “idade do lazer”, dentre outros, como se envelhecer fosse sinônimo de exclusão.

De acordo com a Universidade de São Paulo (USP), até 2030 o Brasil terá a quinta população mais idosa do mundo.

O melhor que se pode fazer é se preparar para enfrentar o ciclo do envelhecimento, pois só não envelhece, quem morre ainda na juventude.

 

Algumas sugestões:

ADOTAR HÁBITOS DE VIDA SAUDÁVEL: praticar uma alimentação saudável e equilibrada fará toda diferença;

MANTER A MENTE E O CORPO ATIVOS: Cuidar do corpo , praticando caminhadas, exercícios diversos e esportes. Cuidar da mente: Praticar exercícios respiratórios, Yoga, Meditação ou Tai chi chuan, com regularidade.

INVESTIR E MANTER O FOCO NA SAÚDE INTEGRATIVA: Na velhice, mesmo com saúde e qualidade de vida, não dá para se descuidar. Manter a assistência médica atualizada, fazendo check-up regularmente, com objetivo de diagnosticar e tratar doenças ou intercorrências da saúde pertinentes ao envelhecimento.

 ►É TEMPO DE APRENDER: Aproveite seu tempo livre, transformando-o em ócio criativo: ler, estudar, fazer cursos online são importantes ações que podem ativar sua autoestima;

SOCIALIZAR-SE: Você pode aproveitar seu tempo livre para melhor dedicar-se a sua família, para viajar ou até mesmo vaguear pelas redes sociais;

►FAZER AMOR É UM ÓTIMO REMÉDIO: A prática sexual faz muito bem a saúde psicossomática. A liberação de Endorfina – substância natural produzida pela glândula hipófise, desperta uma sensação de bem-estar, além de maximizar a atividade cerebral ao fazer o sistema respiratório/circulatório funcionar com maior intensidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ficar velho é antes de tudo um presente que a natureza nos concede. Como já foi dito, só não ficará velho quem morre ainda jovem.

É perfeitamente possível em um futuro muito próximo, as doenças associadas à idade avançada sejam as mesmas, todavia, serão mantidas num estado subclínico e com um nível mínimo de comorbidade. Imagino que dificilmente surgirão episódios cardiovasculares agudos, tumores malignos agressivos, obstruções respiratórias e outras intercorrências desse tipo.

No último dia 07/06/21, o Food and Drug Administration (FDA) norte-americano anunciou o lançamento de  um novo medicamento para o tratamento de pacientes com Alzheimer, registrado com o nome comercial ADUHELM. Esse novo fármaco é a primeira medicação aprovada pelo FDA para combater o declínio cognitivo relacionado à causa dessa doença.

A boa notícia é que cada vez mais a Medicina Ortomolecular se expande e se consolida pela comprovação de sua eficácia no tratamento das doenças neurodegenerativas e pela minimização do processo de envelhecimento patológico.

Para concluir, uma bela reflexão, que nos deixou o saudoso Dom Elder Câmara:

 

“Agora que a velhice começa, preciso aprender com o vinho a melhorar envelhecendo e, sobretudo, a escapar do terrível perigo de, envelhecendo virar vinagre”.

PS: Foi usado pseudônimos para preservar a identidade dos personagens envolvidos.

                                                                                     Revisão de texto Nilma Lima

 

 

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20 COMENTÁRIOS

    • Minha gratidão a você amiga Ceci, leitora assídua dos nossos textos, que do “além-mar”, faz belos comentários. Ceci uma senhora de muitas primaveras vividas, muito saber e lucidez, que residente Ustariz uma cidade no sul da França, próxima aos Pirineus; a bela cordilheira cujas montanhas formam fronteira natural entre a França e a Espanha.

  1. Maravilhoso texto! Muito importante aprender a lidar com o envelhecimento. Cuidar da saúde física e mental regularmente, é estar no caminho certo para aceitar a velhice.

  2. Gostei das considerações finais "Ficar velho é antes de tudo um presente que a natureza nos concede. Como já foi dito, só não ficará velho quem morre ainda jovem.
    Biologicamente o corpo envelhece não resta dúvidas, é real.
    Mentalmente podemos manter a juventude emocional, basta querer saber viver.

  3. Excelente texto Célio! Envelhecer é uma arte, usando as palavras de uma música que gosto muito "é preciso saber viver…" complementando para envelhecer feliz. Quando adentramos nos estudos da espiritualidade fica mais fácil passar por esta fase tão natural do ser humano.E o interessante é que nem nos apercebemos das rugas do rosto, de repente quando um dia nos olhamos no espelho verificamos elas e damos belas risadas rsrs . E isso não é só para os idosos mas também para os jovens e adultos que que não aceitam as limitações impostas pelo karma dessa vida , se entregam a depressão e outras doenças psicossomáticas por acreditar que a vida termina nesta existência.
    Sonhar traçar planos não só para essa etapa atual, mas também para o futuro posterior a essa existência, e ser grata sempre.

    • Amigo(a) (ANONIMO) comece desde agora a viver com qualidade de vida. Aos 32 anos tudo são flores. Só assim quando chegar o tempo da colheta terá bons frutos.
      Gratidão por seu comentário

  4. Texto criativo, reflexivo, clínico, didático e iluminado!
    Dr Luiz Célio está de parabéns pela felicidade na elaboração do pensamento e da ciência!

  5. Parabéns pela excelência em descrever narrando o enredo em envelhecer e ser velho, a idade cronológica não quer dizer idade mental, na realidade envelhecemos desde o dia do nosso nascimento, portanto temos nossas escolhas mediante o nosso estado de ‘Ser’e nunca de ‘Estar’!
    Um forte abraço!

    • Profª. Drª Karina Menezes, sou muito grato por têla na relação dos nossos leitores.
      Muito feliz sua colocação "escolher Ser aos invez de estar".

  6. Na realidade, gosto muito do assunto e muitas vezes me meto onde não devo!
    O texto pra mim é maravilhoso e gostoso de
    ler!
    Se tratando de história verídica, ao ler o texto,
    lembrei-me de uma também verdadeira, de um
    amigo da minha geração, metido à garotão, indo
    ao centro, no seu bugre, estacionou-o e foi tratar de algo de seu interesse!
    Quando voltava, já perto do veículo, para sua
    decepção, ouvi-o o garoto falar para o companheiro: “ Vamos, lá vem o veio do bug “.
    Ele ficou muito irritado e não pagou ao
    menino.

    • Amigo Ricardo Lombardi, colega trabalho por muitas décadas, seu comentário comprova que quando o um idoso "metido a garotão" é reconhecido como "veio" – instala-se uma grande frustração. Essa é a dita cuja Velhice Fatidica. rsrsrsrsrs.

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