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Início Flavio Ramalho de Brito Um bamba da música em um país sem memória

Um bamba da música em um país sem memória

Há poucos dias (em 16 de abril), fez cem anos do nascimento do compositor Luiz Antonio. Muitos vão ouvir falar, aqui neste texto, pela primeira vez, no nome daquele que foi, nas décadas de 1950 e 1960, um dos principais compositores da nossa música popular. A data passou sem qualquer registro na mídia cultural do país, como escreveu, indignado, Ruy Castro, uma semana depois, em sua coluna publicada na Folha de São Paulo que, assim, principiava:

Se você for um baterista australiano de rock ou desenhista de homem-aranha da Marvel, pode morrer sossegado. No futuro, seu centenário será festejado no Brasil em quantas primeiras páginas lhe forem devidas. Mas, se você for um sambista brasileiro, cujo apogeu se deu nos plúmbeos anos 50, pré-bossa nova, torça para que, um dia, alguém se lembre de que você também nasceu há 100 anos e que seus sambas já foram a trilha sonora do país. Refiro-me ao carioca Luiz Antonio (1921-96), cujo centenário, no dia 16, passou batido. E não por falta de motivos para lembrá-lo […] Luiz Antonio fazia música ou letra. Sozinho, ambas. Tudo excepcional e gravado pelos grandes.

Luiz Antônio foi um dos maiores autores de marchinhas e sambas para o carnaval: “Sassaricando” (com Jota Jr e Oldemar Magalhães), “Lata d’agua” e “Sapato de pobre” (Com Jota Jr), “Zé Marmita” (com Brasinha) e “Bloco de sujo” (com Luís Reis), a maioria das letras dessas músicas tinham, como característica, uma incisiva crítica social. 

O nome de Luiz Antonio está inscrito nos maiores clássicos do samba: “Levanta Mangueira” (“Levanta, Mangueira / A poeira do chão…”), “Apito no samba” (em parceria com o pernambucano Luís Bandeira), que teve uma antológica gravação feita pela cantora Marlene, e o magistral “Barracão” (com Oldemar Magalhães), que foi registrado ao vivo em uma interpretação primorosa por Elizeth Cardoso, acompanhada por Jacob do Bandolim e pelo conjunto Época de Ouro. Luiz Antonio foi, também, parceiro do clarinetista Abel Ferreira em um clássico do choro, “Doce Melodia”, gravado pela cantora potiguar Ademilde Fonseca.

Se tudo isso ainda não bastasse, Luiz Antonio é considerado pelo crítico musical Tárik de Souza, no seu livro “Sambalanço – a bossa que dança” (Kuarup, 2017), como “um dos mais atuantes compositores” do chamado “samba de balanço”, ou “sambalanço”, a música que se dançava “coladinho”, na década de 50 e meados dos anos 60, nas enfumaçadas boates de Copacabana, um gênero que chegou a competir, na época, com a nascente bossa-nova.

A música de Luiz Antonio, por quase duas décadas, como escreveu Ruy Castro, fez parte da “trilha sonora do país”. “Mulher de trinta” (Você, mulher / Que já viveu, que já sofreu / Não minta…), “Cheiro de Saudade” (É aquele cheiro de saudade / Que me traz você a cada instante…), “Recado” (Você errou / Quando olhou pra mim…), “Devaneio” (Era a saudade do passado…), “Poema do adeus”, “Poema das mãos”, “Eu e o Rio”, “Ri”, “Murmúrio”, “Chorou chorou”, são canções de Luiz Antônio que marcaram um período da vida brasileira.

O cantor Miltinho (que era comparado ao paraibano Jackson do Pandeiro pelo domínio do ritmo) foi um dos maiores intérpretes das canções de Luiz Antonio. No valioso vídeo mostrado abaixo, gravado, em 1952, na boate Drink, em Copacabana, se tem uma amostra do ambiente das casas noturnas da época, em uma apresentação de Miltinho (então vocalista do conjunto Milionários do Ritmo) cantando “Lamento”, parceria de Luiz Antonio com Djalma Ferreira (organista e proprietário da boate).

O destaque alcançado por Luiz Antonio como compositor, ao final da década de 1950, pode ser avaliado por um disco que foi lançado em 1960, em que ele dividia os créditos das músicas com Antonio Carlos Jobim já, então, autor consagrado.

Apesar do grande destaque que Luiz Antonio conseguiu na nossa música popular, pode-se apresentar como possível explicação para o desconhecimento sobre o compositor o fato de que, no período em que ele esteve em maior evidência, não existem registros de fotos ou entrevistas suas em jornais ou revistas ou mesmo notícias de participações em programas de rádio ou televisão. Todo esse mistério tinha uma razão: Luiz Antonio não existia na vida real. Era apenas um pseudônimo com o qual o zeloso então capitão do Exército Antonio de Pádua Vieira da Costa assinava suas músicas, no sentido de preservar a sua carreira militar.

E é o próprio Luiz Antonio/Antônio de Pádua, anos após ter deixado a caserna, que explicava a situação:

“Muita gente acha que farda não combina com música, que pra poder disciplinar tem que ter raiva de música […] Além disso, no meu tempo, o grande público não estava interessado em quem fazia a música mas em quem a interpretava. Assim preferi que ninguém me conhecesse. O jeito era não tirar retrato, não dar entrevista”.

Nascido no Rio de Janeiro, no bairro do Estácio, Luiz Antonio teve a sua formação nos colégios e academias militares. Embora não soubesse tocar nenhum instrumento, tinha uma grande intuição musical, conforme as suas próprias palavras:

“Não sei nada de música, não sei onde é o dó do piano. Mas sei quando está errado. Meu ouvido acusa que o acorde não é aquele”. 

Luiz Antonio começou a compor muito cedo, aos catorze anos. Quando do seu tempo de cadete, fez a “Canção da AMAN”, hino da Academia Militar das Agulhas Negras, ainda hoje executado nas solenidades oficiais que ocorrem na instituição. Luiz Antonio participou, como tenente instrutor, da Força Expedicionária Brasileira – FEB na Segunda Guerra Mundial. 

O compositor era um grande boêmio, frequentador assíduo da noite carioca, mas, a jornada noturna (que era incompatível com a vida militar) foi facilitada com a sua transferência para cargos burocráticos: “Eu tinha saído do quartel, estava no Ministério da Guerra, e só começava a trabalhar às onze da manhã. Então, ia toda noite ao Drink, ao Sacha’s”. E foi nesse ambiente das noites do Rio de Janeiro, então ainda capital do país, que foram feitas várias músicas de Luiz Antonio.

O golpe militar de 1964 encontrou o coronel Antonio de Pádua servindo no Gabinete Militar do Presidente João Goulart. As músicas de carnaval que ele havia composto com crítica social, como “Zé Marmita”, “Sapato de Pobre” e “Lata d’agua” levaram-no a ser tachado de comunista. Transferido para o norte do país, o compositor recusou-se a ir e pediu reforma do Exército, aos 43 anos, no posto de coronel.

As novas práticas que passaram a ser adotadas no meio musical para a inserção de composições nas gravações foram, gradualmente, afastando as músicas de Luiz Antonio dos discos. O seu último grande sucesso foi gravado, em 1973, por Elizeth Cardoso, o divertido samba “Eu bebo sim” (com João do Violão) (Eu bebo sim, estou vivendo / Tem gente que não bebe está morrendo…).

Algumas músicas de Luiz Antonio alcançaram projeção internacional e são cultuadas por importantes artistas, como o cineasta Woody Allen. No seu filme “Scoop”, de 2006, Allen incluiu “Recado” (Luiz Antonio e Djalma Ferreira) na trilha sonora da película, que era composta de peças de Grieg, Tchaikovsky e Khachaturian. Não satisfeito, Woody Allen colocou “Recado”, em 2011, novamente na trilha de outro filme por ele dirigido: “Meia Noite em Paris”.

“Recado”, com o título “Recado Bossa Nova”, se tornou um ‘standard’ do jazz, com registros em disco feitos por renomados instrumentistas, como os saxofonistas Paul Desmond, Hank Mobley e Zoot Sims, o guitarrista Barney Kessel, o trompetista Roy Eldridge e pelas orquestras de Enoch Light e Les Elgart. “Murmúrio” e “Poema do adeus” tiveram regravações nos EUA feitas pelo pianista (e compositor para o cinema) Lalo Schifrin.

Outra música de Luiz Antonio que, também, obteve grande êxito internacional foi “Menina moça”. A canção, gravada, em 1959, pelo cantor Tito Madi, foi um dos seus maiores sucessos. O compositor fez a música para Sonia, uma das suas filhas, que estava completando, na ocasião, quinze anos. A letra da canção celebra esta data marcante na vida de uma mulher, a simbólica passagem de menina para moça. Incluída, no ano seguinte, no filme “Matemática, zero… Amor, dez” a música teve, a partir daí, incontáveis regravações no Brasil. Em 1966, o músico de jazz Stan Getz gravou “Menina moça” nos Estados Unidos, sendo sucedido, em 2015, por outra regravação feita pelo conhecido saxofonista Kenny G.

Algumas raríssimas fotos de Antonio de Pádua/Luiz Antonio (que não gostava muito de ser fotografado), que ilustram o texto, me foram cedidas por Sonia, filha do compositor (a “Menina Moça” da canção), a quem, aqui, de público, agradeço.

 

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Texto muito bom sobre os grandes compositores, na maioria das vezes esquecidos. Parabéns Ao Flávio. Como é bom e faz bem aos ouvidos relembrar as verdadeiras vozes dos cantores(as) da MPB. Vai o meu desabafo “vozes tão diferentes dos impostores de hoje, uma gritaria, abafada pelo som nas alturas, além das letras péssimas”.

  2. Luiz Antônio, o nome com o qual era conhecido, foi sem nenhum favor um dos grandes compositores da nossa fecunda música popular brasileira. Ia da marchinha de carnaval ao indefectível bolero, que os mais entrados na idade como eu, teve como deleite de amores cultivados na alma.
    Fez uma sabia parceiria com Miltinho, um cantor de voz anasalada muito suave e juntamente com Jackson do Pandeiro, foi um dos maiores dirimistes que conheci.
    Fez uma cancao de nome Eu é o Rio, interpretada por Miltinho, cuja letra é de uma filosofia de vida inigualável , ao mostrar que nada pode deter o Rio, no seu curso para o mar.
    Parabéns ao pesquisador e acadêmico Flávio Brito pela obra prima.

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