fbpx
28.1 C
João Pessoa
Início Flavio Ramalho de Brito O Arquiteto do Samba

O Arquiteto do Samba

“Sou um arquiteto igual a milhares, com o nome de William Blanco Trindade, que também se assina Billy Blanco, tirando de letra e música as coisas da vida”

Assim o compositor Billy Blanco se apresentava na introdução do seu livro “Tirando de Letra e Música” (Editora Record, 1996). Nada mais correto. O arquiteto, que foi durante muitos anos da sua vida, era também um excepcional compositor que “tirava de letra e música as coisas da vida”, até porque, como ele dizia, citando o escritor alemão Goethe, “a arquitetura é a música petrificada”.

Nascido, em 1924, em Belém do Pará, desde muito cedo demonstrou vocação para a música e para a poesia. Apresentava-se no rádio local e tocava em festas. Começou a estudar engenharia em Belém. Em 1946, se transferiu para a Mackenzie, em São Paulo, mas já com a ideia de se tornar compositor. De um colega de faculdade ganhou o apelido de Billy (que seria mais apropriado à carreira musical). Dois anos depois, uma nova mudança, de cidade e de curso. Foi para o Rio de Janeiro, cursar Arquitetura, na antiga Universidade do Brasil, onde, em 1950, se formou.

Através da cantora Dolores Duran, com quem namorava, na época, é introduzido no meio musical do Rio. Em 1951, tem a música “Pra variar” (que depois ele renegava, por considera-la “fraca e sem expressão) gravada pelo conjunto vocal Os Anjos do Inferno. O primeiro grande sucesso veio, em 1953, com o samba “Estatuto de Gafieira”.

Moço / Olha o vexame / O ambiente exige respeito / Pelos estatutos / Da nossa gafieira / Dance a noite inteira / Mas dance direito

Em 1954, em parceria com Antonio Carlos Jobim, Billy Blanco compõe a “Sinfonia do Rio de Janeiro”, uma “sinfonia popular em tempo de samba”. No mesmo ano, também em parceria com Tom Jobim, compõe “Tereza da Praia”, um dos seus grandes sucessos, gravada por Dick Farney e Lúcio Alves.

Nos anos seguintes, seguiram-se novos êxitos, como “Mocinho Bonito, gravado por Dóris Monteiro e “Viva meu samba”, que teve uma magistral interpretação do cantor Sílvio Caldas.

“Venho do reino do samba / Brilhar no asfalto / E na forma de samba / No jeito de samba / Vem o morro também / Faço da minha tristeza / Um carnaval de beleza / Que noutras terras não tem”

Em 1959, Billy Blanco lançou três músicas que demostram a sua grande habilidade em amoldar letras inteligentes, tratando de “coisas da vida”, em sambas sincopados, como são os casos de “A banca do distinto”, “Camelô” e “Pistom de Gafieira”, que se tornaram grandes clássicos do nosso cancioneiro popular. 

“A banca do distinto”

Não fala com pobre

Não dá mão a preto

Não carrega embrulho

Pra que tanta pose, doutor?

Pra que esse orgulho?

A bruxa que é cega esbarra na gente

A vida estanca

O enfarto te pega, doutor

Acaba essa banca

A vaidade é assim, põe o tonto no alto retira a escada

Fica por perto esperando sentada

Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão

Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do tonto

Afinal todo mundo é igual quando o tombo termina

Com terra em cima e na horizontal


“Camelô”

Camelô esse dono da calçada,

Na conversa bem jogada?

Vende a quem não quer comprar,

Se tivesse, tido a chance de uma escola,

Muita gente de cartola,

Lhe daria seu lugar […]

Aconselho então

A muito deputado que ganha calado

Escutar o camelô com atenção

O distinto aprenderá a falar de fato

E ao terminar o mandato já tem uma profissão

                                       

Billy Blanco iniciou a década de 1960 com uma magistral parceria com o violonista Baden Powell: “Samba Triste” O compositor, juntamente com a cantora Aracy de Almeida e o jornalista Sergio Porto (Stanislaw Ponte Preta) realizaram, em 1964, um show histórico na boate Zum-Zum, no Rio de Janeiro, que foi registrado em disco da gravadora Elenco.  

                                            

Durante a chamada Era dos Festivais, concursos de música que passaram a ser realizados, a partir de meados dos anos 1960, Billy Blanco obteve boas colocações nos eventos com as suas canções “Rio do meu amor”, “Canto Chorado” e “Se a gente grande soubesse”.

Nos anos 1970, Billy Blanco compôs uma sinfonia denominada “Paulistana, retrato de uma cidade”. 

Billy Blanco compôs, segundo sua própria estimativa, cerca de quatrocentas músicas (trezentas delas gravadas). Durante as duas últimas décadas do século passado e a primeira do corrente século, Billy Blanco manteve-se ativo, compondo, participando de shows e gravando discos, até praticamente a sua morte, em 2011.

Letrista admirável, uma das suas músicas que Billy Blanco mais gostava era “Se a gente grande soubesse” com a qual ele conquistou, em 1966, o quarto lugar no primeiro FIC – Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. No festival, a canção foi interpretada por Bilinho (filho de Billy, então com 9 anos) e o Quarteto em Cy. Aqui, a música é apresentada por Bilinho e três netas de Billy Blanco.

“Se a gente grande soubesse”

Se a gente grande soubesse

O que consegue a voz mansa

Como ela cai feito prece

E vira flor, num coração de criança.

 

“Haja o que houver  nunca pare de cantar”

                         Billy Blanco 

Relacionados

Esqueceram o Marquês

A passagem de efemérides, como a do segundo centenário da nossa Independência, faz com que algumas figuras históricas daquele momento sejam rememoradas (em regra,...

O cearense que engarrafava brumas

Na música popular são muito comuns as parcerias na elaboração de canções. Nas composições feitas por mais de um autor as contribuições dos parceiros...

O Poeta da alma dos sertões

Desde muito jovem, aquele caboclo alto, com voz grave, se destacara como poeta na região que envolvia os municípios de Sumé, Prata, Ouro Velho...

3 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas

Afinal de Contas Que Canal é Esse?

Canal é um dispositivo hidráulico usado para transporte de água, muito conhecido de todos nós, desde a primitiva levada de terra, até os canais...

Um beijo para o gordo

Sempre me pareceu um pouco tolo a emoção que muitas pessoas demonstram quando algum famoso morre. São famosas as cenas, como nos funerais de...

Medo e Liberdade

Tenho refletido muito, talvez pelo momento político, a respeito de liberdade em seu sentido mais amplo. Mas o que é liberdade? Segundo o dicionário...

Esqueceram o Marquês

A passagem de efemérides, como a do segundo centenário da nossa Independência, faz com que algumas figuras históricas daquele momento sejam rememoradas (em regra,...

Mais Lidas

OS 11 princípios de Joseph Goebbels

Texto originalmente publicado em 08/01/2020    Joseph Goebbels, para os que não têm a informação, foi ministro da propaganda de Adolf Hitler e comandou a...

Medo e Liberdade

Tenho refletido muito, talvez pelo momento político, a respeito de liberdade em seu sentido mais amplo. Mas o que é liberdade? Segundo o dicionário...

Asas que voam

Pelas frestas da janela, essas lembranças invadem o quarto sombrio daquele tempo escorrido nas noites do passado. Uma vez, recordo bem, reservara a mim...

Julgar é fácil, difícil é ser

Como podes dizer a teu irmão: Permite-me remover o cisco do teu olho, quando há uma viga no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave...