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O Grande Ditador

Por: João Vicente Machado
     Charles Spencer Chaplin marcou época na história do cinema e podemos dizer que o cinema foi dividido em duas eras: Antes de Chaplin, A.C e Depois de Chaplin, D.C.

     Inglês de nascimento, de origem muito humilde, migrou para os Estados Unidos a Meca do cinema, caminho percorrido naquela época por todos que se pretendiam cineastas, para montar e construir a sua profícua produção cinematográfica. 

    Era polivalente e atuava em todas as frentes que a produção cinematográfica exigia: redator, editor, produtor, roteirista, ator, músico, poeta, dançarino, coreógrafo, mímico, regente de orquestra entre outras habilidades.

    Criou e imortalizou um personagem que ainda agrada dos oito aos oitenta anos, o imortal Carlitos, que usava uma  indumentária característica, composta por  um traje de passeio roto, sapatos longos calçados as avessas, bengala e chapéu  coco. Era a personificação do vagabundo inofensivo que contrastava com um  Chaplin socialmente sensível e profundamente comprometido com as questões econômicas prejudiciais à nação, ao povo.  

    Viveu seu auge em tempos sombrios como os que vivemos atualmente no Brasil, quando a  divisão do trabalho proposta por Taylor,(1)  se materializava através da linha de montagem de Ford (2).



J. Edgar Hoover

    A guerra fria presidia as relações das duas maiores potências, o Macarthismo, amparado na ação policial de J. Edgard Hoover diretor da CIA. 
    Ambos eram personagens centrais dos golpes de estado e ditaduras militares espalhadas pelo mundo inclusive a América Latina, e o Brasil. No âmbito interno  promoviam à caça as bruxas e só enxergavam na sua frente comunistas comedores de criancinhas e inimigos “da democracia e dos Estados Unidos.

    Chaplin perseguido  como um deles, principalmente por causa do filme Tempos Modernos, de 1936, em que faz uma critica ao modo de divisão do trabalho, condenando não o avanço tecnológico, mas à forma de produção voltada exclusivamente para a máquina, e o seu impacto no mundo do trabalho. 

    Recorri à genialidade de Charles Chaplin para estabelecer um paralelo com o que estamos vivendo atualmente no Brasil e repetir a frase de um cineasta cujo nome não lembra:” QUALQUER SEMELHANÇA COM FATOS OU PESSOAS VIVAS,NÃO TERÁ SIDO MERA COINCIDÊNCIA!
O discurso:

    Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos.

    Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

    O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

    A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

    Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

    Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

    É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

    Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!.

    Em meio à Segunda Guerra Mundial e diante de toda a barbárie trazida pelos conflitos, bem como a ascensão dos regimes totalitários na Alemanha e Itália, a genialidade de Charlie Chaplin, mais uma vez, surpreende todo o mundo e marca indelevelmente a história do cinema.

    Com o filme “O grande ditador”, de 1940, Chaplin conseguiu captar e retratar o que se passava na Europa no período entre guerras realizando uma sátira que, apesar de cômica, traz uma ácida crítica ao nazismo e ao fascismo, demonstrando o quão absurdas eram as suas ideias e apontando as nefastas consequências de suas políticas de dominação e seleção social.

    No filme, Chaplin interpreta dois personagens, o barbeiro judeu que havia sido soldado da Tomânia (país fictício com referência à Alemanha) durante a Primeira Guerra e o ditador Heynkel (clara sátira de Hitler).

    “O grande ditador” é muito rico em conteúdo. As sátiras e críticas à guerra e ao autoritarismo estão presentes em suas cenas e em suas personagens. No entanto, uma das cenas mais marcantes e importantes do filme está no discurso final. Por ser seu primeiro filme falado, Chaplin aproveitou para deixar ao mundo um recado que ressoa até nos dias de hoje.


Fonte (texto):  Canto dos clássicos

Referências: (1)-História e Evolução da  Administração; RH Portal; (2) Americanismo e fordismo em Gramsci.

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