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O Cantador do Seridó

Por :Flávio Ramalho Brito
Aqueles eram tempos sombrios. O cantor e compositor fora chamado a Brasília para se explicar para o Departamento de Censura da Polícia Federal sobre a letra de uma das suas músicas. A canção questionada pela censura era um simples xote que reverenciava o burro, prosaico animal tão utilizado nos sertões nordestinos, onde nascera o compositor. Como a letra falava em “condecoração” e “medalhão no peito”, imaginavam os censores, que aquilo só poderia ser uma crítica disfarçada aos militares que, na época, se aboletavam no poder. Os engravatados censores pediram, então, para que o compositor mostrasse algumas das suas músicas, para que fosse avaliado o grau de subversão ao regime e de contestação às autoridades constituídas da República. E ele começou cantando a tal música afrontosa, que chamava-se O Burro:

“Eu vejo um cidadão desocupado / No salão agraciado ganhar condecoração / O burro que trabalha pra morrer / O burro ninguém vê nem sequer ganhar ração / Trabalha mas ninguém lhe reconhece / o burro é quem merece ter no peito um medalhão”

E continuou, mostrando outras:

 “É filho de guaiamum / É filho de guaiamum / Todo mundo tem um pai / E eu não tenho um […] É triste a pessoa não ter pai / Pra onde a gente vai só se ouve um zum zum zum”

“Só tem véia, só tem véia / No forró da Coréia […] Eu tinha chegado em Natal  […] Saí tomando uns capilé / Quando eu dei fé, tava na Coréia / Só tem véia”

“Cadê o seu negócio, eu quero saber / Cadê o seu negócio, me mostre que eu quero ver […] Diga se o negócio é pequeno / Se é grande ou mais ou menos / Se é fácil de vender.”

Os censores se entreolharam, e um deles disse: Está bom. Pode ir, não tem nada de subversivo não, nada de esquerda. Foi um engano. Está liberado. E foi assim, mostrando as suas letras debochadas e de duplo sentido, que o compositor chamado Elino Julião da Silva se livrou das garras da “sempre inteligente” censura política e de costumes.

Nascido em um sítio na zona rural de Timbaúba dos Batistas, município da região do Seridó no Rio Grande do Norte, Elino Julião trabalhava cuidando do gado e colocando água, tirada de um açude, em latas levadas no lombo de um jumento, para a casa do dono da propriedade. Fazia suas tarefas sempre cantando as músicas que ele ouvia no rádio. Diziam que ele dava para ser “cantador”. Começou a ir, aos finais de semana, a um clube em Caicó, cidade próxima, onde o baterista da banda conseguiu que ele cantasse algumas músicas. Cantou e agradou. Ficou indo outras vezes. Decidiu, então, se mudar para Natal. Viajou, segundo ele, escondido em um caminhão que levava produtos de Caicó para a capital. Em Natal, conseguiu emprego como ajudante de marcenaria e começou a cantar em programas de auditório na rádio Poti. Um dia, Jackson do Pandeiro, estava no Rio Grande do Norte, para se apresentar na rádio e presenciou Elino cantando antes do seu show. O olho experiente do paraibano viu o potencial artístico daquele jovem cantor e fez o convite para que ele fosse trabalhar com ele. Mas Elino estava, na ocasião, impedido de aceitar o convite porque estava cumprindo o serviço militar. Jackson, então, disse para Elino que, quando ele desse baixa no Exército, escrevesse para ele, para que fosse enviada a sua passagem para o Rio de Janeiro. E assim ocorreu. Durante seis anos, Elino Julião, fez parte do grupo de Jackson do Pandeiro. Nesse período com o Rei do Ritmo, acrescentou o que faltava às suas habilidades inatas e fez um curso completo em forró.



Jackson do Pandeiro e Elino Julião

Iniciou a carreira individual, como cantor e compositor, participando de discos com vários intérpretes, as chamadas coletâneas, em uma delas emplacando dois sucessos Xodó de Motorista e Puxando Fogo. Mas, continuou na batalha trabalhando como baterista na noite e, durante cerca de três anos, como ritmista de Luiz Gonzaga. Até que a lembrança de um episódio do seu tempo de rapaz, no sítio onde trabalhava, fez com que ele fizesse uma música que se tornou o seu maior sucesso e que ficou como sua marca: O Rabo do Jumento. Para o escritor paraibano Bráulio Tavares a canção tem poder de síntese (uma história complexa narrada em poucas linhas)”. Parece ter brotado espontaneamente (que letrista resiste a esta rima dada de graça pelo Acaso, “jumento/Nascimento”?).



Elino Julião, a partir daí, se afirmou como um dos principais nomes da música nordestina, com forrós indispensáveis no melhor cancioneiro regional: Rela Bucho, O Burro, Tem Amor Demais, A Grande Caçada, Na Sombra do Juazeiro, Finja Que Não Me Quer, O Forno, O Negócio, Forró da Coréia, Filho de Guaiamum, Na Minha Rede Não, Tamarineira e tantas outras. No tempo em que o forró andou meio por baixo, Elino enveredou pelas músicas derramadamente bregas, onde obteve, também, grandes sucessos, como Meu Cofrinho de Amor. Elino Julião morreu, em 2006, aos 70 anos.



Uma amostra da qualidade dos forrós de Elino Julião pode ser comprovada no disco O Canto do Seridó. O álbum tem participações de Dominguinhos, Fagner, Elba Ramalho, Lenine, Marinês, Xangai, Silvério Pessoa, Maciel Melo, Ná Ozzetti, Tetê Espíndola e Osvaldinho. O disco está disponível em plataformas digitais, como o Spotify.


Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte – Forró da Coréia e Puxando Fogo

OSRN e Isaque Galvão – O Burro
OSRN – Finja Que Não Me Quer e Na Sombra do Juazeiro

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