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Doutor em Medicina e em Forró e maior parceiro de Luiz Gonzaga

Por: Flávio Ramalho de Brito
O menino nascido em Carnaíba, pequeno município da região do Pajeú, em Pernambuco, gostava de passarinhos e de ouvir histórias do sertão, contadas por Lulu das Braúnas, Salustiano, o velho Clemente e Miguel Vaqueiro, tipos humildes com quem conviveu na sua infância e cuja lembrança ele carregaria pela vida afora. Depois dos primeiros estudos feitos em Carnaíba, o filho de Zeca Dantas, comerciante, fazendeiro e ex-prefeito do município, teria que ir para a capital para estudar para ser “dotô”. Em Recife, José de Souza Dantas Filho estudou em tradicionais colégios da cidade. O escritor Mario Souto Maior, seu colega no Colégio Marista, contava que ele, na época, já vivia batucando em caixinha de fósforos, improvisando trovas e inventando músicas pelos corredores da escola. No Colégio Americano Batista, passou a escrever, numa revista da escola, pequenas crônicas sobre coisas e fatos daquele sertão do Pajeú que ele nunca esquecia. Decidido a ser médico, ingressou na Faculdade de Medicina do Recife. Àquela altura, já era bastante conhecido na cidade como um grande improvisador de versos e contador de causos que falavam das coisas do sertão. As atividades acadêmicas na Faculdade de Medicina eram conciliadas com incursões noturnas na vida boêmia do Recife em que, em algumas vezes, era acompanhado por um colega de turma paraibano, o meu tio Raiff Sobreira Ramalho.


Diário de Pernambuco, 2 de dezembro de 1949

Na volta de umas férias passadas no Pajeú, no quarto da pensão em que morava no Recife, pensando nos forrós nas casas simples dos sítios da sua terra, que ele havia deixado para trás, o acadêmico de medicina, que todos chamavam de Zé Dantas, fez uma música, a que deu o nome de Resfolego da Sanfona. Dias depois, em uma noitada na praia do Pina, cantou a canção para dois amigos. Segundo o próprio Zé Dantas, um dos seus companheiros naquela noite teria dito: “Zé, essa música ainda vai dar o que falar […] não tem nada parecido”. Ele não levou muito a sério o comentário, mas, sempre que podia, nas folgas das suas aulas e tarefas da Faculdade, continuava a fazer as suas músicas. Naquele tempo, o pernambucano Luiz Gonzaga estourava nas rádios com seus baiões, xotes, e xaxados e foi ao Recife para fazer algumas apresentações. Contaram para Gonzaga que tinha um compositor na cidade que ele precisava conhecer. Marcaram um encontro no Grande Hotel, no Cais de Santa Rita, onde o Rei do Baião estava hospedado. No bar do hotel, Zé Dantas ficou bebendo com amigos, esperando o retorno de Gonzaga de uma apresentação noturna. Segundo relato do compositor, quando Luiz Gonzaga chegou, se dirigiu ao bar do hotel e perguntou: “Quem é o doutor Zé Dantas?”. Feitas as apresentações, Zé Dantas começou as mostrar algumas músicas a Gonzaga, entre elas Acauã, Forró de Mané Vito, A volta da Asa Branca e Resfolego da Sanfona. Em depoimento ao seu primeiro biógrafo, o paraibano Sinval Sá, Luiz Gonzaga afirmou que Zé Dantas cantou: “Acauã vive cantando / Durante o tempo de verão / No silêncio das tardes agourando / Chamando seca pro sertão”. Gonzaga, então, teria dito que Zé Dantas: “trauteava a música num ritmo nunca imaginado e com a alma aberta, que a gente parecia estar vendo tudo. – Fiquei todo ‘arrupiado’ – falei-lhe”. Zé Dantas, em entrevista dada poucos anos depois do ocorrido, afirmou que Luiz Gonzaga, depois de ouvir as músicas, disse: “Vou meter tudo na minha bagagem e gravar no Rio”. Gonzaga relatou, também, que Zé Dantas relutava em ter o seu nome na autoria das composições, temendo reprovações do seu pai, por ele deixar os encargos do curso de medicina para se envolver com “cantorias”.

Em outubro de 1949, Luiz Gonzaga gravava, em um dos lados de um antigo disco de 78rpm, o Resfolego da Sanfona, do ainda acadêmico de medicina Zé Dantas, rebatizado como Vem Morena, e com a autoria do baião de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, que se tornaria a mais profícua das parcerias musicais que foram feitas pelo Rei do Baião. Em alguns casos, a parceria funcionou da mesma forma que nos trabalhos de Luiz Gonzaga com Humberto Teixeira, que foi o primeiro grande parceiro de Gonzaga. Como no caso do Resfolego da Sanfona, que virou Vem Morena, a letra e música eram de Zé Dantas, que não era propriamente um músico, e Gonzaga entrou com o arranjo que fez com que aquele baião se tornasse um grande sucesso. Diferentemente de Zé Dantas, Humberto Teixeira, lia e escrevia música, tocava flauta e compunha ao piano e muitas das canções da sua parceria com Luiz Gonzaga eram com letra e música dele, mas, segundo Ruy Castro, “o arranjo – ‘sanfonização’, como chamavam, era de Gonzaga, o que o torna legitimamente parceiro”.  


Zé Dantas e Iolanda

Ao final do curso de medicina, o boêmio Zé Dantas conheceu uma irmã de uma colega de sua turma na Faculdade, que deixara Recife para ensinar em uma pequena vila próxima de Serra Talhada. Começaram a namorar e foi para ela, quando ele deixou Pernambuco para fazer residência médica em obstetrícia no Rio de Janeiro, que ele compôs algumas das suas músicas mais conhecidas como Sabiá, ABC do Sertão e A Letra ‘I’. No primeiro ano no Rio, Zé Dantas, que era um exímio contador de causos, assumiu, juntamente com Humberto Teixeira, o comando de um programa na Rádio Nacional chamado O Mundo do Baião. Zé Dantas era apresentado, na divulgação do programa, como já tendo “expressivos triunfos em sua bagagem musical”, como Cintura Fina, Dança da Moda, Forró de Mané Vito e Vem Morena.

Zé Dantas e Humberto Teixeira no programa ‘No Mundo do Baião’, da Rádio Nacional

Zé Dantas, já casado com Iolanda, radicou-se no Rio de Janeiro, trabalhando como ginecologista, em Hospital e com consultório particular, mas, cada vez mais, se dedicando à música. Em 1951, acabou a parceira entre Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira e, então, Zé Dantas assumiu o papel de maior parceiro de Gonzaga e os dois, ano após ano, vão enfileirando músicas que se tornaram clássicos da canção nordestina:  Imbalança, São João na Roça, O Xote das Meninas, Treze de Dezembro, O Casamento de Rosa, A Letra ‘I’, Algodão, ABC do Sertão, Vozes da Seca, Noites Brasileiras, Paulo Afonso, Riacho do Navio, Derramaro o Gái, Siri jogando Bola, São João Antigo, São João no Arraiá eAdeus Iracema. Zé Dantas compôs, também, sozinho, forrós que foram grandes sucessos, gravados por Luiz Gonzaga (Acauã,Forró de Zé Antão, Balança a Rede, O Delegado no Côco) e por outros cantores, como Jackson do Pandeiro (Forró em Caruaru), Marinês (Cadê o Peba) e Ivon Curi (Farinhada). Farinhada é uma amostra da relação das letras de Zé Dantas com o ambiente do interior nordestino: “Tava na penera / Eu tava penerando / Eu tava no namoro / Eu tava namorando / Na farinhada / Lá na serra do Teixeira / Namorei uma cabocla / Nunca vi tão feiticeira / A meninada / Descascava a macaxeira / Zé Migué no caititu / Eu e ela na penera / […] O vento dava / Sacudia a cabelera / Levantava a saia dela / No balanço da penera / Fechei os óio / E o vento foi soprando / Quando deu um ridimuinho / Sem querer tava espiando […] De madrugada / Nós fiquemo ali sozinho / O pai dela soube disso / Deu de perna no caminho / Chegando lá / Até riu da brincadeira / Nós tava namorando / Eu e ela na penera / Tava na penera / Eu tava penerando / Eu tava no namoro / Eu tava namorando”


Revista Carioca, junho de 1951

Durou pouco mais de uma década a parceira de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, com a produção de cerca de cinquenta músicas, um número bastante representativo, considerando que a segunda parceria mais constante do Rei do Baião, que foi com Humberto Teixeira, tem metade desse número, conforme levantamento feito por Dominique Dreyfus, biógrafa de Gonzaga. No carnaval de 1961, Zé Dantas foi passar o feriado no sítio de Luiz Gonzaga, em Miguel Pereira, próximo ao Rio. Num acidente banal, rompeu o tendão do pé. Fez uma cirurgia que não foi bem sucedida e, como também tinha problemas na coluna, começou a tomar cortisona, tendo o medicamento comprometido os seus rins, o que veio a causar a sua morte, um ano depois do acidente. Tinha 41 anos. Deixou várias músicas inéditas, uma delas Samarica Parteira, que Luiz Gonzaga só veio a gravar em 1973. Em 1963, um ano depois da morte de Zé Dantas, Luiz Gonzaga gravou um disco reverenciando o compositor, que tem a música Homenagem a Zé Dantas, composta pelo paraibano Antônio Barros.


Embora a parceria de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira tenha produzido obras imortais do cancioneiro do Nordeste, como Baião, Asa Branca, No meu pé de serra, Juazeiro, Paraíba e tantas outras, o trabalho da dupla teve curta duração, cerca de cinco anos. A separação foi justificada por problemas com entidades de direito autoral. Mas o fato é que Humberto Teixeira, embora nascido no sertão do Ceará, desde os 16 anos morava no Rio e tinha o perfil inteiramente distinto do Rei do Baião. Antes de conhecer Gonzaga, Humberto já fazia músicas, nenhuma com características nordestinas, tendo até feito um samba, com o seu cunhado, o também cearense, Lauro Maia, que se tornaria um clássico do gênero, Deus me Perdoe, gravado originalmente por Cyro Monteiro. Além do mais, Humberto Teixeira, transitava em um mundo diferente daquele que Gonzaga vivia. Teixeira casou com uma atriz e pianista de formação clássica, era um grande boêmio que circulava nos círculos da intelectualidade carioca, tendo sido o fundador e primeiro sócio de uma boate privê, o Clube da Chave, da qual participava gente como Oscar Niemeyer, Vinicius de Morais, Dorival Caymmi, atores, jornalistas e, também, endinheirados. Nessa boate, tocavam pianistas como Tom Jobim, Newton Mendonça e Johnny Alf, futuros fundadores da bossa-nova, um ambiente que nada lembrava os alpendres das fazendas sertanejas, em que Luiz Gonzaga e Zé Dantas fizeram músicas como Riacho do Navio. Humberto Teixeira era um compositor de grande versatilidade e continuou a fazer, sozinho ou com outros parceiros, músicas com jeito nordestino, mas, também, de outros gêneros, o que não ocorreu com Zé Dantas, que nunca se aventurou em compor sobre temas diferentes das coisas do sertão e do Pajeú, para onde ele ia, sempre que podia.



Em relato feito ao seu biógrafo Sinval Sá, Luiz Gonzaga afirmou que quando encontrou Zé Dantas a primeira vez e ele cantou “Já faz três noite que pro Norte relampeia / E a asa branca ouvindo o ronco do trovão / Já bateu asas e voltou pro meu sertão”, ele teria dito: “Você é o que está faltando no nosso baião, Zé Dantas. Eu sinto que você é diferente de Humberto Teixeira. A gente diz pra ele: faça uma letra sobre esse livro. Ele faz. Faça uma sobre os olhos daquela morena; ele faz. Mas você é diferente; é o próprio Sertão, é a vivência, o forró, a alma da nossa gente. O próprio forró, Zé!”.


Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo – Sabiá

Gilberto Gil  Dança da Moda


Gilberto Gil  Xote das Meninas


Dominguinhos  Riacho do Navio


Marina Elali, neta de Zé Dantas – ABC do Sertão (Participação de Geraldo Azevedo)

Marina Elali faz uma homenagem ao avô, em que Zé Dantas canta A Letra I que ele fez para sua mulher, Iolanda.


Luiz Gonzaga fala sobre Zé Dantas e Humberto Teixeira.


Flávio Ramalho Brito
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1 COMENTÁRIO

  1. Flávio Brito nos traz hoje um belíssimo estudo sobre um dos membros daquilo que chamo a santíssima trindade do baião, na pessoa do inigualável Luiz Gonzaga. Zé Dantas foi o mais bucólico deles e não compunha poemas e sim poesia como diz Dedé Monteiro outro imenso poeta do Pajeu das Flores. Zé Dantas, talvez pelo amor telúrico nos enlevava e foi o autor da primeira música de protesto do cancioneiro brasileiro, Vozes da Seca. O período junino, quando as Noites Brasileiras estão silenciosas pelos efeitos da pandemia nos sugere fazer um convite a companheira, Vem Morena ! afastar as cadeiras e dançar O Xote das Meninas. Parabéns Flávio.

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