
Por:João Vicente Machado Sobrinho
Encerrado o primeiro turno das eleições de 2026, o Brasil se prepara para retornar às urnas no próximo dia 25 do corrente mês, para decidir em segundo turno, quem ocupará a Presidência da República do Brasil. O resultado do primeiro turno, não deverá ser observado apenas pela contagem dos votos obtidos pelos dois candidatos que permaneceram na disputa. As urnas produziram um conjunto muito mais amplo de informações, sobre o comportamento do eleitor brasileiro.
É importante perceber que a eleição não é composta apenas por aqueles que votam em determinado candidato. Ela também é formada pelos eleitores que escolhem outros candidatos, pelos que votam em branco, pelos que anulam o voto e, sobretudo, por aqueles que simplesmente não comparecem às urnas.
É justamente nesse último grupo de eleitores, que encontramos um dos dados mais expressivos deste primeiro turno, mostrando que aproximadamente 33,4 milhões de eleitores não compareceram para votar, o que correspondendo a 21,08% do eleitorado apto. Esse é maior índice de abstenção registrado desde a eleição de 1998, ou seja, há 28 anos passados, quando a nossa população era de 140 milhões de habitantes. Esse indicativo não pode ser tratado apenas como mero dado estatístico secundário. Afinal, são milhões de brasileiros que, por diferentes razões, deixaram de participar diretamente dessa importante escolha.

Portanto, a primeira pergunta que os números oportunizam é inevitável: o que está levando uma parcela tão expressiva do eleitorado a permanecer distante das urnas? A resposta provavelmente não se encontra em uma única causa. Por outro lado, não podemos ignorar outro componente dessa equação: o vultoso volume de recursos públicos que movimenta as campanhas eleitorais.
Para as eleições de 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha — chamado Fundo Eleitoral — disponibilizou aproximadamente R$ 4,9 bilhões aos partidos políticos. O PL recebeu cerca de R$ 881,7 milhões; o PT, R$ 615,4 milhões; e o União Brasil, R$ 526,2 milhões.
Diante de cifras de tamanha magnitude, surge outra questão legítima: qual é, efetivamente, a relação entre o dinheiro disponível, a estrutura de campanha, a capacidade de comunicação, a base espacial e o desempenho eleitoral?

Será que podemos concluir que dinheiro compra voto? Apesar dos indícios, uma narrativa dessa natureza exigiria uma investigação muito mais rigorosa. Os indícios devem ser investigados, para verificar se existe correlação entre a quantidade de recursos mobilizados e os resultados obtidos nas urnas. A análise não para por aí e, torna-se imperativa nas eleições para o Congresso Nacional, acrescentando outra dimensão ao problema.
De um lado, estavam parlamentares que procuravam renovar seus mandatos, chegando à disputa eleitoral carregando o peso de sua atuação anterior, sua estrutura partidária e a sua presença mais assídua nos municípios. De outro lado surgiram candidatos que disputavam pela primeira vez, precisando enfrentar estruturas políticas já estabelecidas.
Nesse cenário, as emendas parlamentares também merecem ser examinadas. Não como sinônimo de recurso eleitoral — porque legalmente não o são —, porém como instrumento de atuação parlamentar cuja distribuição pode ser confrontada estatisticamente com o desempenho eleitoral dos seus autores e dos grupos políticos envolvidos. A pergunta, portanto, ganha mais força e é bem maior do que saber apenas quem ganhou ou quem perdeu.

As urnas de 2026 podem revelar muito sobre como o eleitor brasileiro está escolhendo, rejeitando ou simplesmente deixando de escolher seus representantes.
O primeiro turno produziu uma fotografia eleitoral de momento que precisa ser examinada com cuidado. Os dois candidatos que disputarão a Presidência no segundo turno, capitalizaram a maior parte dos votos válidos e essa fotografia muda de dimensão quando colocamos ao lado dela o universo completo de eleitores.
De aproximadamente 158,7 milhões de eleitores aptos, cerca de 125 milhões compareceram às urnas, ou seja, mais de 33,7 milhões permaneceram ausentes. Isso significa que, qualquer leitura política baseada exclusivamente na distribuição dos votos válidos, pode esconder uma parcela considerável do eleitorado. É preciso, portanto, observar a eleição pelo menos por três ângulos: os votos válidos, os votos não válidos e a abstenção.

Os votos válidos mostram a preferência daqueles que efetivamente escolheram um candidato. Os votos brancos e nulos revelam outra forma de participação, ainda que não interfiram no resultado da disputa. Já a abstenção representa uma ausência que pode possuir causas muito diversas. Uma pessoa pode não votar por dificuldade de deslocamento; outra, por estar viajando; outra, por problemas de saúde ou questões familiares; outra, por desinteresse; outra, por desalento e descrença na política; e até por rejeição aos candidatos disponíveis. Agrupar todas essas situações sob uma única explicação seria transformar uma estatística complexa em uma conclusão simplista.
É justamente por isso que os 33,7 milhões de ausentes constituem talvez um dos dados mais importantes desta eleição.
Observemos que a abstenção de 2026 superou ligeiramente os 20,95% registrados no primeiro turno de 2022. O movimento merece atenção porque ocorre em uma sociedade na qual a política ocupa enorme espaço no cotidiano, seja pelas redes sociais, pela televisão, pelos debates, pelas campanhas digitais ou pela permanente disputa entre grupos políticos.

Paradoxalmente, quanto maior parece ser a presença da política no ambiente público, maior também se torna a necessidade de compreender por que uma parcela tão expressiva do eleitorado permanece afastada do processo eleitoral. Isso cria uma característica importante do sistema: partidos que já possuem maior representação política, tendem a dispor de maior capacidade financeira para disputar novas eleições. Surge, então, uma questão estrutural:
O sistema de financiamento eleitoral favorece a reprodução das forças politicas já estabelecidas ou consegue proporcionar condições competitivas para os novos postulantes?

A resposta não deve ser construída por impressão. Ela pode ser procurada nos números e é possível comparar recursos recebidos, gastos declarados, presença territorial, quantidade de votos e desempenho eleitoral. Também é possível observar situações nas quais candidatos com menor volume de recursos obtiveram votação expressiva e situações nas quais grandes investimentos não produziram um resultado proporcional. Somente esse cruzamento permitirá separar aquilo que é recurso financeiro daquilo que é capacidade política de transformar recurso em voto.
As emendas parlamentares introduzem uma importante variável adicional. Um deputado ou senador em exercício possui uma vantagem institucional que o candidato estreante não possui: dispõe de um histórico de atuação parlamentar e pode apresentar à população resultados de sua atividade política.

Quando recursos provenientes de emendas chegam aos municípios, obras e investimentos passam a fazer parte da relação entre parlamentar, administração pública local e comunidade.
Isso não significa, por si só, que determinado recurso tenha produzido determinado voto, mas permite formular uma hipótese verificável:
Existe relação estatística entre a presença de emendas parlamentares em determinados municípios e o desempenho eleitoral do parlamentar responsável por sua indicação?
Se a resposta puder ser encontrada, município por município, teremos uma contribuição muito mais importante para compreender o funcionamento das eleições do que uma simples acusação de uso eleitoral de recursos públicos. É necessário comparar os dados.
Para onde o parlamentar destinou recursos? Quanto destinou? Quando esses recursos chegaram? Qual era sua votação anterior naquele município? Qual foi sua votação em 2026? Houve crescimento? Houve redução? E como se comportaram municípios semelhantes que não receberam os mesmos recursos?

É esse tipo de comparação que transforma opiniões e palpites em análise.
A eleição dos parlamentares também merece ser observada sob a perspectiva da renovação política. O eleitor brasileiro frequentemente manifesta insatisfação com a política, mas essa insatisfação precisa ser confrontada com seu próprio comportamento eleitoral.
Se a crítica aos representantes é elevada, mas os índices de reeleição permanecem altos, temos um aparente e um estranho paradoxo-se, ao contrário, ocorre forte renovação, precisamos investigar quais fatores produziram essa mudança.
O eleitor está procurando novos nomes? Está simplesmente substituindo partidos? Está rejeitando determinadas lideranças, ou está reproduzindo as estruturas políticas existentes? A comparação entre parlamentares reeleitos e candidatos estreantes poderá oferecer algumas respostas.

Chegamos, finalmente, ao ponto talvez mais sensível desta análise. Mais de 33 milhões de eleitores não participaram do primeiro turno. Esse contingente é grande demais para ser tratado como uma nota de rodapé. Essa gigantesca abstenção num pais de voto obrigatório, precisa ser apreciada e estudada como fenômeno político e social.
Pode haver nela uma parcela de desinteresse, outra de dificuldades práticas, outra de desalento e descrença na política e outra de rejeição ao sistema político, além de fatores demográficos e territoriais.

Por isso, seria precipitado afirmar que toda abstenção representa protesto político, como seria igualmente precipitado ignorar a possibilidade de que uma parte dela expresse algum grau de afastamento do eleitor em relação à política. O dado objetivo é incontestável: mais de um quinto do eleitorado apto não compareceu ao primeiro turno e esse eleitor continua sendo parte da sociedade brasileira.
Mais importante ainda: quem não votou no primeiro turno continua apto a votar no segundo, desde que esteja regularmente inscrito. Cada turno constitui uma votação independente para fins de comparecimento.
Portanto, os milhões que ficaram ausentes no dia 4 de outubro constituem também uma variável que poderá alterar a fotografia eleitoral no próximo dia 25. Não é possível saber antecipadamente quantos retornarão às urnas, nem para qual candidato votarão. Mas é perfeitamente possível reconhecer que a participação ou a ausência desse contingente será um dos elementos importantes da segunda etapa da eleição. Elas também falam pelos votos em branco, pelos votos nulos, pela abstenção, pela renovação ou permanência dos parlamentares, pela distribuição dos recursos de campanha e pela reação entre representação política e território.

O primeiro turno de 2026 deixou uma fotografia eleitoral que ainda precisa ser revelada em sua essência. As urnas não falam apenas por meio dos votos depositados em favor de um candidato, mas da totalidade.
Os votos mostram quem avançou para o segundo turno. Os números da abstenção mostram quem ficou de fora. Os dados de financiamento mostram a dimensão dos recursos públicos empregados na disputa. A votação dos parlamentares permite investigar a relação entre mandato, estrutura política e renovação. E o cruzamento dessas informações pode revelar muito mais sobre o comportamento do eleitor brasileiro do que a simples contagem dos votos válidos.

Por isso, talvez a pergunta mais adequada para compreender esta eleição não seja apenas quem ganhou o primeiro turno, mas:
O que levou milhões de brasileiros a escolher determinado candidato, outros milhões a escolher candidatos diferentes e mais de 33 milhões a não comparecer às urnas?
Responder a essa pergunta exige menos paixão e mais estatística; menos impressão e mais comparação; menos torcida e mais disposição para compreender os fatos. A eleição ainda não terminou, mas o primeiro turno já deixou uma certeza: as urnas de 2026 estão contando uma história muito maior do que aquela que aparece no resultado final da apuração.

“Uma democracia também precisa escutar as perguntas que a contagem dos votos não responde.”
Curadoria – Gorette Wanderley




