Por: Antonio Henrique Couras;
Já há algum tempo, eu chego a rir dos meus infortúnios. Mando mil currículos; quando sou chamado para uma entrevista, desistem da minha candidatura depois de mil etapas. O estágio dos sonhos não virou emprego. Até meus ex-namorados se encontraram — um com o outro — e estão namorando. Digo que, se eu inaugurar um cemitério, as pessoas deixam de morrer.
Vira e mexe, me vem à mente a música da Maysa: “Se chegue, tristeza, se sente comigo, aqui nessa mesa de baaar…”
A verdade é que a tristeza hoje já não me faz mal. Inclusive, gosto de senti-la. Gosto de sentir qualquer coisa. Só quem já passou pela escuridão de uma depressão sabe como é bom sentir o que quer que seja — nem que seja medo ou tristeza. Qualquer coisa, menos o vazio da depressão.
Mas não é dessa companheira com quem aprendi a conviver que venho falar aqui. Vim falar de uma companhia que cultivo como quem coloca frutas na janela para ver os pássaros virem comer: a esperança.
A esperança, aprendi, é o sentimento mais poderoso que temos diante da adversidade. Não é a resiliência (eu mesmo já desisti inúmeras vezes), nem a coragem. É termos a esperança de que, mais cedo ou mais tarde, algo há de dar certo. É a esperança de conseguir que nos faz tentar de novo, e de novo, e de novo.
A esperança é teimosa, graças a Deus! É como aquela plantinha que insiste em brotar na rachadura do cimento, mesmo quando todos já disseram que ali não nasce mais nada.
Ah como é bom quando a esperança me visita, ela entra, sem cerimônia, sem bater. A vezes me esqueço e tranco a porta, ela, já muito acostumada em lidar com os desesperançados, já quase desesperados como eu, sempre dá um jeito. Entra pela fresta da janela, pelo riso que escapa em um vídeo bobo, por uma conversa qualquer, por uma luz que bate diferente na sala num dia nublado. Às vezes vem só pra dar bom dia e ir embora. Outras vezes, fica dias em silêncio no canto da sala, me olhando. Mas nunca me abandona de vez. Quando menos espero, me vejo sorrindo, planejando… a felicidade no meio da tempestade é sinal da sua presença.
Já tentei viver sem ela. Tentei ser racional (não recomendo a ninguém). Tentei aquela coisa meio amarga de quem diz que não espera nada para não se decepcionar. Mas percebi que quem não espera nada também não se alegra com nada. Fica tudo meio cinza. Nem dor, nem alívio. Nem frio, nem calor. Nem música, nem silêncio. Apenas o som do relógio.
Aliás, o tempo… Ah, o tempo tem uma relação íntima com a esperança. Porque é só quando se tem tempo — ou quando se acredita que há tempo — que a esperança respira aliviada. Já reparei que, nos dias em que me sinto vencido pelo cansaço e pelas cobranças da vida adulta, o que me dói não é o fracasso, mas a ideia de que talvez já não dê mais tempo.
Mas quem é que decide isso? Quem é que risca no calendário a data de validade dos sonhos? A gente só envelhece de verdade quando para de fazer planos. E eu, que às vezes me sinto um idoso num corpo de trinta anos, fiquei pensando: talvez eu precise fazer mais planos.
Mesmo que não se realizem. Mesmo que mudem no meio do caminho. Mesmo que se percam. Mas que existam.
Fazer planos é como acender luzinhas no escuro. É dizer pro universo: “Eu ainda tô aqui. Ainda acredito.” Pode parecer pouco, mas já foi o bastante pra me salvar mais de uma vez.
São nesses planos que eu venho me apegando como a uma tábua de salvação, são cursos, concursos, provas, testes, negócios e até simples bordados que me fazem querer que o amanhã chegue porque eu tenho esperança que será melhor que hoje.
A esperança tem dessas. Se disfarça de pequenos milagres, de ideias, de vontades. Um bilhete esquecido. Uma mensagem fora de hora. Um abraço inesperado. Um cachorro abanando o rabo quando você menos espera. Ela não precisa ser grandiosa. Não precisa mudar o mundo. Só precisa lembrar que ele ainda gira.
A esperança também tem irmãos. A fé, a teimosia, o humor. Todos primos de uma mesma família que insiste em não deixar a gente afundar. Quando a fé me abandona, entra a esperança. Quando a esperança vacila, vem a teimosia. E quando tudo parece ridículo demais pra seguir acreditando, o humor entra em cena. Porque rir de si mesmo é uma forma de dizer que a história ainda não acabou.
E eu sou bom nisso. Em rir. Em fazer piada do caos. Já me disseram que isso é defesa, que é fuga. Pode ser. Mas, sinceramente? Funciona. E se me permite um conselho: abrace as ferramentas que te mantêm de pé. Mesmo que não sejam as mais nobres. Mesmo que o mundo diga que você devia ser mais forte, mais prático, mais focado. Às vezes, o que nos salva é um gole de café quente, uma música antiga, ou uma prece sussurrada na hora de dormir.
É curioso como a esperança tem má fama. Vira e mexe alguém diz: “Não crie expectativas.” Como se criar expectativa fosse um crime. Eu digo: crie, sim. Mas crie sabendo que nem toda semente vira flor. Algumas viram sombra. Outras, apenas silêncio. Mas ainda assim: plante.
Porque às vezes a gente planta esperança em um lugar, e ela floresce noutro. A vida tem dessas ironias. A gente manda um currículo pra uma vaga e recebe uma proposta de outro canto. A gente investe amor em alguém e, anos depois, percebe que foi essa experiência que nos preparou pra outra pessoa. A gente sonha com uma coisa e descobre que queria outra.
A esperança é uma semente errante. Ela vai sendo levada pelo vento dos nossos gestos. Às vezes ela se prende na roupa de alguém, entra numa casa desconhecida, e floresce num jardim onde você nunca imaginou estar.
Talvez por isso ela nos exija tanto: tempo, humildade e paciência. É fácil ser esperançoso quando tudo está indo bem. Difícil é quando nada parece dar certo. Quando a conta não fecha. Quando o telefone não toca. Quando o “sim” que você tanto queria vira um “talvez” ou um silêncio constrangedor.
Mas mesmo assim, ela insiste. E, se você prestar atenção, ela sempre deixa sinais. Um pôr do sol bonito num dia feio. Uma criança que sorri pra você na rua. Um texto que te encontra quando você mais precisava ler aquelas palavras. Como esse aqui, talvez.
E se você chegou até aqui, lendo isso, é porque, de algum modo, ainda tem esperança também. Nem que seja a esperança de eu conseguir escrever melhor para animar os seus domingos.
Nem sempre a esperança se mostra como aquela gigante, épica, que move montanhas. Mas uma esperança tímida, que vive embaixo da cama, entre os sonhos não realizados e os medos que a gente empurra pra depois. Uma esperança que cochila, mas não morre. Que não grita, mas sussurra.
E é com ela que a gente segue.