Democracia provinciana

 FOTO: HONÓRIO BARBOSA

Por: Neves Couras;

Este texto é um pouco diferente dos temas que costumo abordar, mas diante de tudo que estamos vendo acontecer em nosso país não posso deixar de, aqui nesse espaço, falar sobre esse tema. Vivemos um momento político tão conturbado que tenho a impressão que se algum dia as pessoas estudaram o que é Democracia, se esqueceram. A preocupação é: direita ou esquerda. Nem tudo pode ser entendido assim quando se está cogitando a nossa soberania. Será que não se vê isso?

Vou tomar a liberdade de relembrar o que é Democracia: “Democracia é um sistema político em que o poder supremo pertence ao povo, que o exerce diretamente ou por meio de representantes livremente eleitos. Esse sistema se baseia no respeito aos direitos humanos, na realização de eleições periódicas, livres e justas, na separação de poderes, no Estado de Direito e na participação ativa da sociedade civil.”

Podemos entender, então que para vivermos essa democracia definida pela ONU, são necessários representantes livremente eleitos. Mas também são necessários eleitores livres e, respeito aos direitos humanos. Será que, então, vivemos uma democracia?

Como algumas pessoas sabem, assumi vários cargos no Governo do Estado, fui representante da Paraíba no Governo Federal, também em cargos comissionados. Tudo maravilhoso. Muitos “amigos”, muitos sorrisos e portas abertas para ser recebia em todos os lugares, afinal, ora eu era representante do Governador ora da primeira dama do Brasil, à época, Dona Ruth Cardoso, grande figura na defesa de um Estado de bem-estar social e precursora de programas que posteriormente se tornaram o que hoje conhecemos como “Bolsa Família”, um programa que se tornou referência mundial em combate à pobreza. Depois de deixar os referidos cargos, fui chamada para assumir um outro cargo ligado a primeira dama do Governo do Estado, ainda trabalhando com assistência social e erradicação da pobreza.

Depois de ter deixado todos esses cargos, muitos “amigos” desapareceram. Outros, quando me viam, davam um jeitinho de desviar o caminho para não me cumprimentar. Aos poucos fui percebendo que quando assumimos alguns cargos, como animais, parece que fomos “ferrados”, assim como o gado, para sermos identificados pelo dono.

Todo esse relato me fez pensar muito e durante muito tempo para chegar à conclusão que a maioria de nós esqueceu que somos livres, não somos gado de ninguém. Quando aquele famoso Ministro disse que tomaria certa atitude para deixar o “gado passar”. Tive a certeza que a maioria dos políticos entendem, mesmo que não carreguemos um ferro em nossa pele com a “marca deles”, acham que as nossas decisões, nossa fala e atos devem ter coerência com o que eles pensam.

O pior dessa triste história é que as pessoas mesmo com autoconhecimento, intelectual ou não, se comportam da mesma forma. Até a nossa roupa é causa de “sinal” de que lado estamos. Na Paraíba, houve um tempo – exatamente quando eu estava em um desses governos, que tinha uma certa cor que não podíamos usar. Eu e minha forma diferente de ver esse tipo de coisa, caí na besteira de usar uma calça muito bonita que tinha, e quando cheguei no trabalho muito satisfeita por me sentir bem vestida, fui logo indagada:

– Mudou de lado?
Confesso que demorei alguns minutos para entender o queria dizer esse “mudar de lado”. Nunca mais pude vestir essa calça para ir ao trabalho.

Esse “ferro”, já trouxe a outras pessoas amigas muitas tristezas. Chegaram ao ponto de deixar de visitar um ex-colega, simplesmente porque ele ocupou um cargo em um governo. Acredito que por medo de serem denunciados que “mudaram de lado”. Se é um funeral de ex-colega, também os ex-colegas ou os que se diziam amigos, não podem ir, pois têm medo de serem vistos.

Eu me pergunto: onde ficou, ao longo da história, o respeito aos direitos humanos? Repito: são direitos humanos. Somos livres ou não? Será que o significado de liberdade mudou? Ou fomos nós, com nossos medos, que por conveniência o deixamos de lado?

Não se esqueçam que todos os cargos e governos são passageiros. Que você pode, hoje, estar de um lado e, quando mudar o governo, todos serão descartados como se descartam os móveis das salas, ato comum em cada governo, a cada dirigente. Também já presenciei isso.

Ainda me entristece saber que em um Estado dito “laico”, conforme está na nossa Constituição Brasileira, a política partidária divida os seguidores das religiões, da mesma forma que muitas ainda são praticadas, mas perseguidas.
Caros leitores e leitoras, sinto-me privilegiada por poder chamá-los assim, pois sei que, apesar de nossas posições políticas e religiosas não agradarem a todos, ainda assim somos acompanhados por quem compartilha ou ao menos respeita esse olhar. Respeito todas as opiniões, mas acredito que uma das razões pelas quais lemos — seja um livro, seja um texto — é justamente para ampliarmos nosso conhecimento e desenvolvermos uma consciência política e social mais profunda.

Para finalizar, ainda sonho que um dia percebamos que todos somos livres e a nossa liberdade é uma das coisas mais dignas a um ser um humano e a um País. Neste momento, não precisamos escolher um lado como se estivéssemos em uma quermesse. Não podemos pertencer ao cordão azul, nem ao vermelho. Precisamos defender nossa soberania. Afinal, a Democracia é um sistema político para ser vivido por todos.

Estudem um pouco mais ou revejam alguns conceitos que aprendemos na Escola, só então veremos que a Democracia não pode ser de uma pequena província, mas de toda uma Nação.

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