Um dado incômodo sobre crime, trabalho e aplicativos no Brasil

Por: Antônio Couras;

Um estudo acadêmico recente e relevante mostrou que a expansão dos serviços de gig economy no Brasil — especialmente iFood e plataformas similares de entrega — está associada a uma queda nos índices de criminalidade em municípios onde esses serviços passaram a operar.

A pesquisa, conduzida pela economista Isadora A. Frankenthal, ligada ao MIT, analisou dados de mais de uma centena de cidades paulistas ao longo de quase uma década e encontrou uma redução estatisticamente significativa, sobretudo em crimes patrimoniais, após a entrada das plataformas.

O dado chama atenção não apenas pelo resultado, mas pelo desconforto que provoca. Em um país acostumado a discutir segurança pública quase exclusivamente em termos de polícia, prisão e repressão, a pesquisa sugere algo menos intuitivo e mais profundo: trabalho, mesmo precário, pode ser mais eficaz do que força bruta para reduzir o crime.

A pesquisa analisa o período entre 2010 e 2019, cruzando a expansão territorial do iFood com registros oficiais de criminalidade. O método busca isolar o efeito da chegada da plataforma em municípios comparáveis, antes e depois de sua operação. O resultado principal aponta uma queda média de cerca de 10% na criminalidade geral, com efeitos mais claros sobre furtos e roubos.

A própria autora é cuidadosa: não se trata de afirmar que aplicativos “acabam com o crime”, nem de ignorar outros fatores sociais e econômicos. Ainda assim, o padrão se repete com consistência suficiente para levantar uma hipótese forte: a criação de oportunidades de renda imediata altera o cálculo social do crime.

Crime não nasce no vazio. Essa conclusão dialoga com décadas de estudos em economia e sociologia. O crime raramente é apenas moral ou cultural; ele é, antes de tudo, uma resposta a contextos de escassez, exclusão e ausência de alternativas. Quando o custo de oportunidade aumenta — quando existe trabalho, ainda que instável — a criminalidade tende a cair.

Aplicativos como iFood fazem exatamente isso. Não oferecem carreira, estabilidade ou proteção social robusta. Mas oferecem entrada rápida, renda previsível no curto prazo e ocupação do tempo. Para jovens em territórios onde o mercado formal não chega e o Estado aparece quase exclusivamente na forma de polícia, isso faz diferença.

O estudo também sugere um efeito urbano complementar. A circulação constante de entregadores amplia o fluxo nas ruas, inclusive em horários antes mais vazios. Cidades mais movimentadas tendem a ser cidades menos propícias a crimes de oportunidade. Não por vigilância institucional, mas por algo mais simples: menos anonimato, mais presença humana. É um lembrete antigo, mas frequentemente esquecido: violência prospera no vazio social. Onde há vida urbana, ainda que precária, há algum grau de proteção.

Contudo, o estudo não é apenas sobre aplicativos. Ele é um diagnóstico indireto do fracasso estrutural do Estado brasileiro em oferecer alternativas econômicas mínimas, sobretudo para jovens das periferias.

Se plataformas privadas, movidas por lógica de mercado e lucro, conseguem reduzir a criminalidade simplesmente criando renda imediata, isso diz muito sobre o quanto faltam políticas públicas de emprego, formação técnica, renda básica e inclusão produtiva. O aplicativo entra onde a escola falhou, onde o emprego formal expulsou, onde a política pública nunca se instalou.

É eficaz? Em certa medida, sim. É desejável como modelo de sociedade? Claramente não. Não confundir efeito com virtude.

Nada disso transforma a gig economy em solução estrutural. A mesma pesquisa que aponta redução de crimes não resolve — nem pretende resolver — debates sobre precarização, ausência de direitos, riscos ocupacionais e assimetria de poder entre plataformas e trabalhadores.

O perigo está em celebrar o efeito colateral e esquecer a causa. A criminalidade cai não porque a sociedade ficou mais justa, mas porque ficou momentaneamente menos desesperada.

O estudo da economista Isadora A. Frankenthal não deveria ser usado para defender aplicativos como política pública, mas para levantar uma pergunta incômoda: se renda mínima, ocupação do tempo e previsibilidade reduzem o crime, por que insistimos em tratar segurança pública apenas como caso de polícia?

Talvez o dado mais revelador não seja a queda da criminalidade, mas o fato de que, no Brasil, qualquer mecanismo que funcione minimamente já parece revolucionário.
E isso diz menos sobre iFood ou Uber Eats — e muito mais sobre o país que somos.

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