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Memórias do Sertão:As lavadeiras do Santo Agostinho

Iam dar 4 horas da madrugada. O sol não tinha chegado. As bacias, as latas e as roupas separadas. A farofa, com farinha de milho e ovo cozido, a rapadura e o bolo de caco, devidamente embrulhados. Tudo pronto. Com um candeeiro na mão, Mamãe caminhou pela casa e foi verificar se meus irmãos mais velhos, Rose, Rogério e Valdir, já estavam preparados. A caminhada seria longa.

A estiagem castigava o sertão. A maioria dos açudes e barreiros do sítio Glória havia secado. A principal fonte de água para beber era uma velha cacimba, situada próximo à casa de Heleno de Narciso. Para os outros usos, pegar-se-ia em qualquer lugar que tivesse. O açude do Santo Agostinho ainda tinha um resto de água, sendo a saída para a lavagem de roupa das famílias da região.

Depois de alguns metros da casa, Tia Zita juntou-se a eles. Trazia goiabas, bem madurinhas, e deu algumas a meus irmãos. Joaninha de Tio Izidro e sua filha Josita, também tinham chegado. Ao longo da estrada (pouco mais de uma légua), o grupo ficaria maior. Ainda chegariam Teresa Bernardo, Rita de Teresa, Luquinha e Chica do Bode. Animadamente, andavam a passos largos. Pouco a pouco, com as trouxas de roupa na cabeça, as lavadeiras desapareceriam em meio a juremas, marmeleiros, mandacarus…

Era preciso chegar cedo, para garantir um bom lugar. Os melhores eram aqueles próximos da água e que tinham pedras grandes, para esfregar os tecidos. E sempre já tinha gente. Às vezes, na noite anterior, algumas pessoas deixavam toalhas e lençóis marcando lugares. E outras conseguiam fazer uma espécie de tanques (chamavam de batedor), com as pedras sustentadas por forquilhas de troncos de árvores. Eram territórios próprios.

Logo, as margens do açude estavam lotadas. Por algumas horas, o esfregar das roupas era o som dominante. Depois de horas caminhando, parecia que as lavadeiras multiplicavam sua energia para limpar as toalhas, lençóis e roupas de suas famílias.

Primeiro, Mamãe e Rose ensaboavam os panos. Depois, colocavam para “quarar” nos lajedos, “aguavam” e viravam. Em seguida, enxaguavam e os espremiam, para em seguida secá-los. O sol quente, que queimava a pele, rapidamente tirava a umidade da roupa. Para as rodilhas, preparava-se uma solução com anil. Quando este estava faltando, utilizava-se cinza. Mamãe tirava a cinza do fogão e peneirava, para eliminar os resquícios de carvão. Armazenava e levava num saco plástico. Então, colocava numa bacia e em seguida, a água. Depois, mergulhava os tecidos, que ficavam bem branquinhos. Tinha um dia que mamãe levava só as redes. Eram 5, uma para cada filho.

Valdir e Rogério, com seus galões, não deixavam faltar água nas bacias. E faziam também para as amigas de Mamãe. Ganhavam rapadura, banana, manga, bolos e cuscuz como agradecimento. A cada ida, aproveitavam para dar um mergulho. Era comum escutar:

– Eita como é bom quando os meninos de Dona Madá vêm! Não falta água de jeito nenhum.
Ao término da lavagem, as mulheres iam tomar banho, descansar e esperar a roupa secar. Procuravam uma sombra. Era a hora de compartilhar a comida (macaxeira, galinha de capoeira, farinha, bolo, ovo cozido…) que trouxeram e as animadas conversas. Uma confraternização. Naquele instante, nenhum sofrimento existia.

Dona Janete e seu esposo José Joaquim moravam próximo dali. Gentilmente, ela nunca se esquecia de levar o almoço: feijão temperado, farofa de cuscuz, arroz mole, carne de galinha e ovo estrelado.

Quando o sol já não estava tão quente, pouco a pouco, as lavadeiras pegavam suas trouxas. Hora de voltar. Cada uma, um caminho. Em poucos minutos, não havia mais ninguém.

Rose sempre pedia a Mamãe para passar na casa de Dona Severina, uma artesã, que fazia panelas, potes e quartinhas de barro. Enquanto admirava as peças, o grupo tomava água e café feito com rapadura. Após descansar um pouco, continuavam a jornada. Outra parada na casa de Margarida Vicente, agora para beber água. Pelo caminho, vários encontros com os conhecidos.

Quando chegavam em casa, o sol estava se despedindo. Papai abria a porta. Eu corria para abraçar mamãe. Todos estavam cansados. Após o jantar, ficávamos um pouco conversando na calçada. O assunto dominante era a falta de chuvas na região. Eu não entendia muito bem, e no colo de mamãe, o adormecer era rápido.

Mamãe me levou poucas vezes, mas o bastante para algum tempo depois, eu pudesse perceber o quão penosa era a jornada das lavadeiras. Mas, o que mais me recordo é que elas eram mulheres muito fortes e em meio a tantas dificuldades, seguiam em frente, transformando sofrimento em alegria.

 

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