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Início Anita Machado O deserto não é só aridez: a Fertilidade do deserto existe

O deserto não é só aridez: a Fertilidade do deserto existe

 

No início do ano de 1993 eu tive que me deslocar para São Paulo a fim de retirar um nódulo no fígado, uma cirurgia de risco que não podia ser realizada em Fortaleza porque os hospitais na época, não tinham estrutura para fazer uma cirurgia de grande porte.

Chegando em São Paulo fui internada no hospital da Beneficência Portuguesa, sendo informada pelo médico cirurgião que a cirurgia seria na semana próxima Após os exames preparatórios, percebi pelos comentários da equipe médica que seria mesmo uma operação de risco. Chegado o dia, quando adentrei o centro cirúrgico, deixando meus dois filhos na sala de espera, tive a nítida consciência que ali eu poderia morrer. Então fiz um repasse do que fora a minha vida até então e tive medo. Tive medo porque, senti que estava de mãos vazias diante de Deus e que pouco ou quase nada tinha feito no sentido de tornar o mundo melhor e mais justo. Esse sentimento seria talvez o resquício dos cursos de filosofia e teologia nos quais me graduei no final da década de (70) setenta, no auge dos eflúvios da Igreja Progressista e da Teoria da Libertação com que na época eu muito me empolgara, mas com o tempo deixara de lado, embora a lembrança e o desejo de fazer algo com, e pelo povo pobre sempre continuasse a me perseguir

Naquele momento “in extremis”, voltei-me para Deus numa súplica, pedindo que mais uma oportunidade me fosse dada, e eu me dedicaria de corpo e alma a trabalhar junto aos pobres.

A cirurgia foi um sucesso. Totalmente recuperada cuidei de me engajar como catequista na minha paróquia, pois sabia que seria a Igreja o trampolim para eu chegar até o povo e ser acreditada

A oportunidade surgiu por ocasião da Assembleia de Pastoral, quando se reuniram todos os grupos e comunidades para avaliar a caminhada da Paróquia. Formada a reunião  de grupos, onde cada participante apresenta os desafios de sua comunidade, uma mulher participante do meu grupo moradora da favela do Lagamar/Fortaleza – CE, relata a situação difícil da sua comunidade, abandonada segunda ela, pelos poderes públicos, também pela própria igreja, citando situação de sofrimento e miséria de pelo menos três pessoas doentes, carentes de alimento e remédio, de uma visita que fosse.

À medida que a mulher por nome Dil falava, eu ia imaginando: “encontrei o caminho” passando então a sentir uma alegria enorme e uma certeza de que, a partir daí, eu poderia viver a minha vocação e o meu compromisso diante de Deus.

Terminada a assembleia fui falar com Dil, para dizer que pretendia visitar aquelas pessoas necessitadas das quais ela havia falado, acertando com ela o dia e a hora para nos encontrarmos para as visitas.

A favela do Lagamar que fica nos confins do bairro onde eu moro é muito temida, sendo os seus moradores descriminados pelo histórico de violência, roubos, drogas, conluio de facções, e tudo que se possa falar de exclusão de um reduto de pobreza extrema. Daí poder chamar de excluídos os seus moradores empobrecidos, aqueles que sobram do sistema formal vivendo a margem da sociedade.

A partir daquele encontro em que fui apresentada por Dil nas visitas que fizemos, passei a caminhar com os excluídos do lagamar até hoje. São 28 anos de caminhada viva e concreta.

No começo não foi fácil. Viam-me com certa desconfiança, falando pouco, conversando menos ainda. Mas eu estava confiante, afinal não caí lá de paraquedas, mas, conduzida por alguém da comunidade e com o aval da Igreja. Deixava o meu carro à distância e descia a pé para não dar a impressão de ser poderosa, de estar acima deles, ou que vinha ali para protegê-los, pois não era esse o meu intento. O que eu pretendia mesmo era caminhar junto com o povo da favela, conhecer o seu mundo, sua maneira de ser, os seus anseios e tentar junto com eles  resolver os seus problemas, certa de que o efeito mais devastador da exclusão não é tanto o abandono material sempre trágico, mas a humilhação e a desvalorização do ser humano que levam a perda da própria dignidade.

Aos poucos fui ganhando a confiança e entrando no seu mundo e foi como uma luz que se ascende, para acabar com o preconceito de que, a favela é lugar somente de bandidos, ladrões, marginais Lá também residem pessoas descentes, honestas, trabalhadoras, pais e mães de família ao lado daquelas que se corrompem levadas pela miséria e pelo abandono.

Adentrando no mundo dos excluídos, fui percebendo que a vida deles é um contínuo enfrentamento: o dia – a – dia, o trabalho quando tem, o desemprego, o medo da polícia, a doença, a fome.

Também a miséria os ensina a ser inventivos. Fazem de tudo para sobreviver: reciclam lixo, aproveitam as sobras, vendem qualquer coisa inclusive drogas, se prostituem. É a lei da vida, a miséria também degrada moralmente. Mas os pobres são resilientes. Mesmo em condições de vida dura, vergonhosa, fingem não sofrer, têm uma certa nobreza, obedecem a um código de honra ao que parece. Também são sustentados por uma religiosidade surpreendente. Como diz Clodovis Boff “O Deus dos excluídos não é mistério, é evidência, não é enigma, é luz” Religião para eles é conforto.  No meio do maior abandono a fé lhes dá uma esperança é âncora, é salvação. Os pobres também são prestimosos, acolhedores capazes de ajudar ao outro partilhando o teto e o pouco que têm. 

Caminhar com o pobre muitas vezes cansa. Nem tudo são flores, não se têm resultados imediatos. É armar-se de vontade firme e revestir-se da “paciência histórica”. Más a medida do cuidar é a compaixão, é oferecer a vida que eles carecem com os olhos e o coração fitos na vontade do Mestre:

“A alma humana é feita para não estar sozinha.” Theilard de Chardin 

 

 

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Anita Machado

 

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