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Zé Pintado e os partidos

 

A vida partidária brasileira teve seu marco inicial definitivo com a proclamação da república, já que vivíamos uma monarquia onde os ensaios partidários eram muito tímidos e quase inexistentes. Por isso nenhuma caricatura de partido conseguiu resistir a essa lógica, o que só viria ocorrer a partir do século XIX.

O historiador José Honório Ribeiro afirma que “o  Brasil sempre foi dominado por um só partido – o partido  das classes proprietárias, ou o Partido do Patriarcado; o único partido realmente governante da historia nacional”

O site, nos seus últimos dias de blog  e, sob o efeito  da ressaca eleitoral  provocada pelos  resultados do primeiro turno das eleições de novembro passado, trouxe um artigo da nossa lavra, publicado no dia 19/11/2020  sob o título Começar de Novo, que revela o nosso entendimento sobre o propalado   pluripartidarismo que o nosso sistema eleitoral abriga e que ao nosso ver, se constitui de fato num único partido, “O Partido do Patriarcado.” 

O nosso entendimento, comunga  com o pensamento do Prof. José Honório Rodrigues, ou seja, apesar da existência atual de mais de trinta siglas partidárias de partidos mais conservadores, de fato  temos um único partido  que representa o “patriarcado,”  que exerce o poder e governa  de fato.

As eleições da Câmara e do Senado, que estão em curso, vêm se desenrolando de forma a confirmar  à  tese que também defendemos. Deixando de lado os Saquaremas e que representava os conservadores e os Luzias que representavam o partido liberal, vamos direto ao fim da Era Vargas e à redemocratização, para encontrar entrando em cena a União Democrática Nacional – UDN antigetulista e os Pró Vargas Partido Social Democrático – PSD, e o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB.

 

            

Em Lavras da Mangabeira da Época, a força da Coronela Federalina Augusto  Lima ainda era muito  presente, através  de um dos seus netos, no caso o Coronel Raimundo Augusto Lima, que comandava com pulso forte a oligarquia que lhe foi legada, através do PSD. A força política da família, naturalmente inibia o surgimento de qualquer iniciativa de oposição partidária, malgrado houvessem dissidentes no  próprio  círculo familiar e lutas encarniçadas pelo controle hegemônico não somente do município de Lavras mas de toda região.

Somente na década de 1950 organizava-se uma acanhada oposição, partidariamente inexpressiva, liderada por um paraibano de Cajazeiras de nome Emar Matos, sem que representasse ameaça ao Coronel, que tinha o domínio político não apenas de Lavras da Mangabeira, como também nas cidades circunvizinhas.

É nesse contexto político que desponta Zé Pintado, figura bastante conhecida na cidade, que junto aos seus  irmãos Tota e Senhor, filiaram-se  à UDN recém fundada e passaram a fortalecer  a débil militância oposicionista, receosa  de represálias. 

Esse fato ocorreu  no alvorecer da minha vida, o que nos autoriza dizer: “o caso eu conto como o caso foi”, pois os fatos me foram narrados ao vivo, pelo próprio Zé Pintado, apelido que ele ganhou em razão das numerosas sardas   que exibia no rosto afilado. 

Tinha o  nariz aquilino,  mais ou menos 1,75m de altura, muito calmo e educado, uma conversa longa e agradável,  um papo sempre temperado com o condimento do  fuxico que o maniqueísmo gerava.

Zé Pintado da UDN,  era proprietário de um Bar e dividia a preferência da clientela com Antonio de Abdias do PSD. 

Essa partilha natural, era necessária e providencial para acomodar as contradições da gangorra política, embora houvesse algumas transgressões leves, originárias dos descendentes dos Leites, alem de figuras “neutras” que frequentavam o Bar, como  Chiquinho de Alexandre de Sousa, Odilon Sucupira e Francisquinho de Hilda, esse último, genro do  Coronel Raimundo Augusto. Eu acho mesmo que eles iam lá muito mais para assuntar!

Nas horas de menor movimento eu me aproximava curioso de Zé Pintado e puxava conversa. Ele, sentado numa cadeira, uma das  mãos escorando a cabeça,  fazia longas narrativas recheadas do histórico dos confrontos, lembrando que naquela época os derrotados, considerados de baixo como ele rotulava, não tinham direito à nada. Empregos, cargos, benefícios e influência política para mandar na policia, era privilégio concedido aos partidários da   situação que estavam por cima e Zé Pintado como oposição, vivia a pão e água  e mesmo assim ainda satisfeito por não ter sido  “disciplinado na chibata.”

Como “tudo passa sobre a terra” como dizia José de Alencar, houve uma reviravolta na política  e um grande acordo partidário foi costurado pelo tirocínio político do meu padrinho Vicente Augusto.   O referido acordo fez com que outro paraibano de Cajazeiras, pertencente à UDN e  de nome João Ludgero Sobreira, saísse como o candidato de conciliação, pacificando um confronto secular.

Estabeleceu-se uma trégua que foi muito benéfica para a cidade, a qual  experimentou na gestão de João Sobreira, um próspero período de desenvolvimento.  

                                                              

 

João Ludjero Sobreira

Na época, eu que  estava em Fortaleza estudando para vestibular,  me desloquei  à Lavras para votar,  aguardei a apuração vitoriosa para a coligação  e aproveitei para entrevistar Zé Pintado que, muito tristonho com o resultado  me revelou: 

 “Ê meu filho, a política de Lavras da Mangabeira acabou-se!  “

Eu perguntei: por  que  Zé, se tu  ganhastes a eleição? Estás te queixando de que?

 “Ganhei, mas não vou levar, é mesmo que ter perdido”!

  Não me trouxe nenhuma vantagem!” 

E com a calma que lhe era peculiar satisfez  a minha curiosidade: “Veja: não prendi ninguém; não transferi ninguém; não mandei a policia desarmar ninguém; não dei uma surra em ninguém! de que adiantou ganhar?” 

Mais não disse nem tivemos coragem de perguntar, me retirei e distante dele disparei na risada.

Mutatis mutandis talvez a diferença esteja apenas na surra. O resto é literalmente igual. Basta dar uma olhada na composição do secretariado para as prefeituras de maior importância, Parahyba e Campina Grande. É por essas e outras razoes bem fisiológicas, que as oligarquias da Paraíba, sabendo disso tudo, tenham tanto apego aos cargos que são distribuídos com os de cima nessa condição. Por isso investem com tanto ódio contra as ameaças políticas que lhes atravessa o caminho, para destruir quem quer que se apresente contestando e ameaçando seu poderio, o seu reino e a sua casta. Sim, não temos somente classes, mas também castas!

É assim que funciona na velha/nova política! Ainda vamos ter muita luta!

Consulta:Joaryivar Macedo, Os Augustos;Dimas Macedo, Dona Fideralina, o Mito e a Realidade.

Fotografias: pt.wikipediamcom;facebook.com;

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