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O Poeta, o Dragão do Mar e o Almirante Negro

O cancioneiro popular brasileiro sempre teve grandes letristas, Noel Rosa, Orestes Barbosa, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Paulo Cesar Pinheiro e tantos outros. Entre os maiores poetas da nossa canção, encontra-se, certamente, Aldir Blanc, morto, há dois meses, vítima dessa terrível pandemia que assola o mundo. As letras de músicas feitas por Aldir Blanc são, em grande maioria, de temas líricos (90% delas, na estimativa do próprio Aldir), embora ele, quase sempre, seja lembrado como um compositor de canções de crítica social, de viés político. Essa vinculação talvez se deva à preeminência na sua obra de músicas como O Bêbado e a Equilibrista, que foi o hino da anistia aos exilados políticos durante a ditadura militar, e Mestre-Sala dos Mares, em que ele exalta e faz a ligação entre duas figuras da arraia-miúda, gente do povo, personagens principais de dois episódios esquecidos pela história oficial, o Dragão do Mar e o Almirante Negro. Essa magistral conexão, que conseguiu burlar a absurda censura que existia na época em que foi feita a canção, entre dois momentos da vida brasileira só poderia ser fruto da percepção de um atento leitor da história, e de tantos outros assuntos, como era o caso de Aldir Blanc, que vivia imerso em livros.

Mestre Sala dos Mares (letra original, não aprovada pela censura da Polícia Federal)

“Há muito tempo nas águas da Guanabara / O Dragão do Mar reapareceu / Na figura de um bravo marinheiro / Que a história não esqueceu / Conhecido como AlmiranteNegro / Tinha a dignidade de um mestre-sala […]”

Na letra aprovada pela Censura e que foi gravada por Elis Regina e por João Bosco, parceiro de Aldir na música, o marinheiro teve que se transformar em “feiticeiro” e o “Almirante” virou “navegante”. Aldir Blanc narrou a última das suas várias idas ao Departamento de Censura, para tentar aprovar a música Almirante Negro, que acabou tendo o título mudado para Mestre-Sala dos Mares:

“Eu entro — aí é que eu acho um negócio revoltante —, vem um cara de paletó e gravata, com o paletó aberto com o coldre aparecendo, andando de um lado para o outro. A coronha do revólver só faltava passar no meu nariz. O cara de repente diz para mim assim: “Mas, então… Vocês estão errando o foco. Vocês estão mudando a letra, insistindo, insistindo e o problema é ó…”. E esfregava o dedo na pele do braço. Eu não entendi. “Toda hora esse troço na letra aí, o negro isso, o negro aquilo.” […] Aí eu saio de lá zonzo, tomo uma cerveja a um quilômetro dali, falo com o João sobre esse troço e a gente transforma em “O Mestre-Sala dos Mares”


Mas, afinal, quando e onde apareceram na História do Brasil o Dragão do Mar e o Almirante Negro que Aldir Blanc colocou na letra da música O Mestre-Sala dos Mares?

 O Dragão do Mar: No início da década de 1880, o tráfico de escravos da África para o País estava extinto. Com a emancipação, em 1879, dos escravos em Cuba, restava, nas Américas, apenas o Brasil mantendo o regime escravista. O declínio da atividade açucareira no Nordeste e a expansão das lavouras cafeeiras em São Paulo fizeram surgir um novo tipo de tráfico interno, entre as províncias. Ao mesmo tempo, crescia o movimento abolicionista. Agremiações emancipadoras despontavam por toda parte, e no Ceará não foi diferente. No final de janeiro de 1881, um navio atracara no porto de Fortaleza para que fosse embarcado um grupo de escravos que iria ser vendido no Sudeste do País. Instados pelo jangadeiro negro José Napoleão, os demais praieiros se recusaram a transportar nas suas jangadas, do porto até a embarcação, aquela infeliz carga humana. Foi a primeira reação conhecida ao transporte interprovincial de escravos. Julgando-se incapaz para liderar a paralisação, José Napoleão passou o comando do movimento ao prático do porto, Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, o Mestre Chico, também humilde como ele, mas muito respeitado por todos pelo seu conhecimento das águas da barra. A partir de então, pela inabalável recusa dos jangadeiros em fazer o traslado para os navios, não houve mais nenhum embarque de escravos no Ceará. Chico da Matilde, mesmo com todas as perseguições que sofreu por conta da sua atitude, integrou-se ao, cada vez mais intenso, movimento abolicionista cearense, que se alastrou da capital para interior. Em primeiro de janeiro de 1883, em ato com a presença do líder abolicionista fluminense José do Patrocínio e de Chico da Matilde, na pequena cidade de Acarape (que depois teve o nome mudado para Redenção), foram alforriados todos os escravos do município. No dia 25 de março de 1884, quatro anos antes da abolição do regime escravista no País, assinada pela Princesa Isabel, o governador da província decretava a extinção da escravidão no Ceará.

 Em abril de 1884, Chico da Matilde, como um dos principais artífices da extinção da escravatura no Ceará, embarcou, em um navio que antes transportava escravos, para ser homenageado pelos abolicionistas do Rio de Janeiro. Levava na embarcação a sua jangada de seis paus, que fora denominada “Libertadora”. A sua chegada ao Rio era, assim, anunciada no jornal Gazeta de Notícias: “Por estes quatro ou cinco dias chega o ‘dragão do mar’. Assim é conhecido no Ceará o jangadeiro Francisco do Nascimento, pratico do porto e senhor dos verdes mares bravios da terra de Alencar”. O Mestre Chico, que já trazia do Ceará o cognome de Dragão do Mar, navegou “nas águas da Guanabara”, como diz a canção de Aldir Blanc, e atracou no porto do Rio. Em apoteótica recepção foi carregado em um grande cortejo pelas ruas da cidade. Durante as duas semanas que passou no Rio, o Dragão do Mar foi aclamado e objeto de homenagens diversas, em uma delas a sua jangada foi levada, em uma grande passeata, para ser depositada no Museu Nacional, como símbolo da libertação dos escravos cearenses.  Retornando ao Ceará, com o passar dos anos, o Dragão do Mar voltou a ser o Chico da Matilde, o humilde prático do porto, e foi assim que o escritor cearense Gustavo Barroso, nos seus tempos de criança, o conheceu: “A alcunha dos dias de glória voou-lhe dos ombros como uma capa malatada que o vento leva, evaporou-se como a espuma das vagas que o alísio lhe soprava nas faces […]”

 

Capa de revista carioca, de abril de 1884, homenageando o Dragão do Mar

 

Esquecido nos livros em que a História do Brasil é apresentada aos estudantes nas escolas do País, o Dragão do Mar, depois de mais de cento e trinta anos da sua participação no movimento libertador do seu povo, teve inscrito o seu nome, através de lei de 2017, no Livro dos Heróis da Pátria, existente no Panteão da Pátria e da Liberdade, edificado em Brasília em um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer.

Centro Cultural Dragão do Mar – Fortaleza

O Almirante Negro: Em novembro de 1889, no dia seguinte à instauração do regime republicano no País, o novo governo editava um decreto, de número 3, que acabava com os castigos corporais na Marinha. Durou pouco tempo essa proibição. Cinco meses depois, um novo decreto, de número 328, restabelecia as punições corporais, mas, limitando-as, no caso de faltas graves, a “apenas” 25 chibatadas. Curiosamente, esse decreto não foi publicado nos jornais da época, como era comum, nem também consta a sua numeração nos arquivos de legislação disponibilizados no sítio da Presidência da República. Felizmente, o ato legal foi preservado para a história por mãos diligentes. O castigo corporal, na prática, voltou a ser adotado sem obedecer à limitação do número “módico” de 25 chibatadas, que havia sido determinado no decreto 328 de 1890.

Em novembro de 1910, vinte anos depois do retorno da punição corporal aos marinheiros, assumia a Presidência da República o marechal Hermes da Fonseca. Uma semana após a posse, o marechal se encontrava, à noite, em uma recepção, ouvindo a belíssima Tannhauser, de Richard Wagner. De repente, um grande estrondo abalou o local, estraçalhando vidros e cristais. Minutos depois, chegava a notícia de que embarcações da Marinha, que estavam fundeadas nas “águas da Guanabara”, como dizia a canção de Aldir Blanc, haviam se rebelado. O disparo havia partido do encouraçado Minas Gerais, na época um dos mais modernos e potentes navios de guerra do mundo. Aderiram à sublevação o encouraçado São Paulo, o cruzador Bahia, e outras embarcações da Armada, que se encontravam no local. A Marinha, diferentemente do Exército, tinha os seus oficiais originários das camadas mais altas da sociedade. Embora houvesse se modernizado, com relação a embarcações e equipamentos, persistiam inalteradas as degradantes condições, que vinham do tempo do Império, a que eram submetidos os praças lotados nos navios. Ao contrário da oficialidade, os marinheiros eram quase todos de origem pobre e com pouca instrução, a maioria constituída de filhos de escravos. O excesso de jornada de trabalho, a péssima alimentação e a prática dos castigos corporais tornavam insuportável a vida dos marujos nos navios de guerra. Uma punição de 250 chibatadas dada a um marinheiro do Minas Gerais, aplicada na frente de toda a tripulação formada no convés do navio, despertou a revolta nos praças. Mesmo com o marujo desmaiado, as chibatadas continuaram a ser dadas. Foi combinado o levante com os praças que estavam nas outras embarcações fundeadas no local. Na data e horário acordados, os marinheiros assumiram os comandos dos navios. Após o tiro de advertência contra a cidade, foi enviado pelo rádio o seguinte comunicado: “Não queremos a volta da chibata. Isso pedimos ao presidente da República, ao ministro da Marinha. Queremos resposta já e já. Caso não tenhamos bombardearemos cidade e navios que não se revoltarem. Guarnições Minas, São Paulo, Bahia.”

Comandava o levante de cerca de 2400 praças dos navios rebelados, um marinheiro negro chamado João Cândido. Conservava seu roto uniforme branco, apenas com um lenço vermelho no pescoço que o identificava como o Almirante daquela armada insurgente, João Cândido manteve submissa, por cinco dias, sob a mira dos canhões da sua esquadra, a cidade do Rio de Janeiro e toda a estrutura de poder na capital do País. Com o governo impotente para enfrentar os amotinados, foi aprovado, às pressas, no Senado e na Câmara, um projeto de anistia aos revoltosos. Confiantes na boa-fé do governo, que decidira acabar, terminantemente, com o castigo de chibatadas nos navios, os sediciosos deixaram as embarcações e se apresentaram, em terra, às autoridades.

João Cândido, o Almirante Negro

Começava, a partir daí, a mais cruel perseguição aos marinheiros envolvidos na revolta. A maioria foi desligada da Marinha, muitos foram fuzilados, outros presos. João Cândido e outros cabeças do movimento foram aprisionados em condições sub-humanas. É dele o depoimento ao jornalista Edmar Morel, autor do livro A Revolta da Chibata: “Foi horrível. Dos dezoito camaradas no meu cubículo, só escaparam dois. Eu e o ‘Pau da Lira’ […] o resto foi comido pela cal, jogada com água dentro do subterrâneo”. Retirado da prisão, como louco, João Cândido foi internado em um hospício. Constatada, depois, a sua sanidade foi, novamente, aprisionado e submetido a um Conselho de Guerra. Funcionou na acusação, como promotor, João Pessoa, que viria depois a ser Presidente da Paraíba. O Almirante Negro foi absolvido por unanimidade e, ao ouvir a sentença, chorou abraçado a Evaristo de Moraes, o advogado de defesa. Mas, ele e seus companheiros de rebelião, permaneceram expulsos da Marinha. João Cândido sobreviveu, até a sua morte, em 1969, aos 89 anos, de pequenos biscates, durante certo tempo vendendo peixes na Praça XV, no Rio de Janeiro. Em 2008, o Presidente Lula sancionou lei que concedia anistia post mortem a João Cândido Felisberto, líder da chamada Revolta da Chibata, e aos demais participantes do movimento”, restaurando, quase um século depois, a anistia concedida em 1910, que foi sonegado pelo governo da época a humildes praças, que reivindicavam apenas o direito de ser tratados pela Marinha como seres humanos.

João Cândido

A censura à letra da música Mestre-Sala dos Mares era focada no termo negro, “toda hora esse troço na letra aí, o negro isso, o negro aquilo”, como o censor dizia para Aldir Blanc. O desconhecimento pelo encarregado da censura dos fatos da História do Brasil fez com fossem por ele ignoradas e aprovadas as astuciosas palavras de exaltação ao Almirante Negro, colocadas por Aldir Blanc no verso final da canção:

 “Glória a todas as lutas inglórias / Que através da nossa história / Não esquecemos jamais / Salve o Navegante Negro / Que tem por monumento / As pedras pisadas do cais.”

João Bosco e Chico Buarque – Mestre-Sala dos Mares

Flávio Ramalho de Brito
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