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João Pessoa
Início O sertão em alma e carne
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O sertão em alma e carne

Uma tarde de inverno no sertão

É um grande espetáculo pra quem passa

Serra envolta nos tufos de fumaça

Água forte rolando pelo chão

O estrondo da máquina do trovão

Entre as nuvens do céu arroxeado

O raio caindo assombra o gado

Atolado por entre as lamas pretas

Rosna o vento fazendo pirueta

Nas espigas de milho do roçado.

No sertão quando o chão está molhado

Corre água nas veias de um regato

Pula a onça da furna corre o gato

Um cavalo galopa estropiado

Um garrote atravessa o rio de nado

Uma cobra se  acua com um cancão

A cantiga saudosa do carão

Faz lembrar o lugar que fui nascido

Entre as telas do filme colorido

Que Deus fez pra o cinema do sertão.

Quando é festa animada de São João

Nunca faltam canjica nem sequilho

Pamonha, mingau, bolo de milho

Busca pé, estrelinha e foguetão

Cantoria, namoro, discussão

Quebra pote, corrida de argolinha

Padrinho de fogueira e a madrinha

Casamento matuto, samba e jogo

E a cabocla com o rosto cor de fogo

Tocaiando as panelas da cozinha.

No sertão quando é bem de manhãzinha

Sertanejo se acorda na palhoça

Chama o filho mais velho sai pra roça

À mulher toma conta da cozinha

Faz o fogo de lenha e encaminha

Um guisado, angu quente ou fava pura

E depois de fazer essa mistura

Sai faceira igualmente uma condessa

Com um chibungo  de barro na cabeça

E vai levar aos heróis da agricultura.

No sertão a tarefa é muito dura

Mas se tem a colheita, a criação

Ferramenta da roça, produção

Uma rede, um Grajau de rapadura

Uma dez polegadas na cintura

A viola, o baú, uma cabaça

A tarrafa e o litro de cachaça

Mescla azul, botinão, chapéu baeta

Fumo grosso, espingarda de espoleta

E um cachorro mestiço bom de caça.

A riqueza do pobre nunca passa

De um pote que mata sua sede

Uma enxada num canto de parede

Dois chapéus, um de palha, outro de massa

Um cambito tingido de fumaça

Uns dez filhos que tem sua aparência

Uma esposa que é mãe da paciência

Se chorar ou  sofrer não se maldiz

E ele às vezes é  muito mais feliz

Do que um rico ladrão de consciência.

É preciso ter muita paciência

Guardar milho num quarto empaiolado

Sustentar criação com alastrado

Numa terra que tem pouca assistência

Trabalhar no serviço de emergência

Esperando o inverno que não vem

Insistir, crer em Deus e tratar bem

Manter sempre a família tão unida

Do chão seco arrancar o pão da vida

Sertanejo faz isso e mais ninguém.

No sertão quando o inverno não vem

Só se encontra desolação e mágoa

No riacho não vê-se um pingo d’água

Sopra um vento assombroso do além

Seca o tronco robusto do muquém

Cai a folha mais grossa, murcha a fina

Toda árvore murchece, se inclina

No calor do sol quente verga as costas

Parecendo um fantasma de mãos postas

No altar de uma seca nordestina.

No verão quando o sol se descortina

Se escuta o zumbido das abelhas

O balir melancólico das ovelhas

O dueto dos pássaros da matina

O bonito alazão sacode a crina

O vaqueiro aboiando chama a rês

Os canções gritam todos de uma vez

Acusando a presença da serpente

No concerto de música diferente

Da orquestra sinfônica que Deus fez.

E o traje do homem camponês

Quando sai para a festa ou para feira

É a calça de mescla, uma peixeira

Um paletó listrado de xadrez

Umas botas do couro de uma rês

Para dançar forró enquanto é moço

Um chapéu aba larga grande e grosso

Com a pena qualquer de um passarinho

E a medalha fiel do meu padrinho

Com um rosário enfiado no pescoço.

Falar mal do sertão hoje eu não ouço

Não se entrega ao cansaço ou enxaqueca

Um herói pelejando contra a seca

Contra a cheia combate sem sombrosso

Respeita a moral de velho ou moço

Também quer vê a sua respeitada

Sem Brasil a América é derrotada

Com  Brasil a América vale mil

Sem Nordeste o Brasil não é Brasil

E sem Sertão o Nordeste não é nada.

No sertão quando rompe a alvorada

No oitão do terreiro um frango pia

Uma cobra valente engole jia

Na floresta desperta a passarada

Canta uma canção tão afinada

Que parece uma orquestra universal

Um peru dá três voltas no quintal

Um cabrito na cabra puxa os seios

E o vaqueiro esvazio os peitos cheios

De uma vaca leiteira no curral.

Numa sombra que dá no mangueiral

O cachorro brigando com o teiú

A caçada de peba e de tatu

A novena, uma noite de natal

A carne de sol com pouco sal

Cantoria louvada com bandeja

No pilão duas moças na peleja

Uma arranca de inhame e de maniva

Isso aí é a cópia pura e viva

Da mais bela paisagem sertaneja.

Poema extraído do LP Violas de Ouro
De Ivanildo Vilanova e Geraldo Amâncio

Hoje eu abro alas para uma das maiores duplas de violeiros que vi e ouvi cantar. Trata-se de dois ases dos muitos que o gênero produziu. 

  Geraldo Amâncio Pereira – nascido no sítio Malhada da Areia nas margens do Rio Salgado, município do Cedro Ceará, portanto quase meu conterrâneo de Lavras da Mangabeira. 

Membro da Academia Lavrense de Letras, da qual também faço parte,  escritor e  nome internacionalmente conhecido, enfim, um operário da cultura popular nordestina, a mais rica do Brasil.

Ivanildo Vilanova – nascido no distrito de Gonçalves Ferreira, pertencente ao município de Caruaru em Pernambuco, 
É outro expoente notável do mundo da viola e da poesia,  escritor e também consagrado internacionalmente.
Ambos têm uma obra densa e muito fecunda e lá pelo inicio da carreira compuseram uma dupla posteriormente desfeita que ficou na história da cantoria de viola.

Gravaram um Lp que tem por título Violas de Ouro no qual foi gravado  o poema que se segue, publicado  no blog  alexmedeiros1956@gmail.com e também pelo talentoso  poeta Amazan.

Ao final, postarei um áudio gravado pelo canal repentes e emboladas de uma cantoria realizada pela dupla no Clube Hotel em São José do Egito, catedral da poesia e do repente. Esse tipo de cantoria é chamada pé de parede e essa, para mim, foi a maior cantoria que tive a oportunidade de ouvir em toda minha vida.

Mesmo que você não seja um aficionado do gênero aconselho que escute, até por curiosidade.


O SERTÃO EM CARNE E ALMA

Uma tarde de inverno no sertão
É um grande espetáculo pra quem passa
Serra envolta nos tufos de fumaça
Água forte rolando pelo chão
O estrondo da máquina do trovão
Entre as nuvens do céu arroxeado
O raio caindo assombra o gado
Atolado por entre as lamas pretas
Rosna o vento fazendo pirueta
Nas espigas de milho do roçado.

No sertão quando o chão está molhado
Corre água nas veias de um regato
Pula a onça da furna corre o gato
Um cavalo galopa estropiado
Um garrote atravessa o rio de nado
Uma cobra se  acua com um cancão
A cantiga saudosa do carão
Faz lembrar o lugar que fui nascido
Entre as telas do filme colorido
Que Deus fez pra o cinema do sertão.

Quando é festa animada de São João
Nunca faltam canjica nem sequilho
Pamonha, mingau, bolo de milho
Busca pé, estrelinha e foguetão
Cantoria, namoro, discussão
Quebra pote, corrida de argolinha
Padrinho de fogueira e a madrinha
Casamento matuto, samba e jogo
E a cabocla com o rosto cor de fogo
Tocaiando as panelas da cozinha.

No sertão quando é bem de manhãzinha
Sertanejo se acorda na palhoça
Chama o filho mais velho sai pra roça
À mulher toma conta da cozinha
Faz o fogo de lenha e encaminha
Um guisado, angu quente ou fava pura
E depois de fazer essa mistura
Sai faceira igualmente uma condessa
Com um chibungo  de barro na cabeça
E vai levar aos heróis da agricultura.

No sertão a tarefa é muito dura
Mas se tem a colheita, a criação
Ferramenta da roça, produção
Uma rede, um Grajau de rapadura
Uma dez polegadas na cintura
A viola, o baú, uma cabaça
A tarrafa e o litro de cachaça
Mescla azul, botinão, chapéu baeta
Fumo grosso, espingarda de espoleta
E um cachorro mestiço bom de caça.

A riqueza do pobre nunca passa
De um pote que mata sua sede
Uma enxada num canto de parede
Dois chapéus, um de palha, outro de massa
Um cambito tingido de fumaça
Uns dez filhos que tem sua aparência
Uma esposa que é mãe da paciência
Se chorar ou  sofrer não se maldiz
E ele às vezes é  muito mais feliz
Do que um rico ladrão de consciência.

É preciso ter muita paciência
Guardar milho num quarto empaiolado
Sustentar criação com alastrado
Numa terra que tem pouca assistência
Trabalhar no serviço de emergência
Esperando o inverno que não vem
Insistir, crer em Deus e tratar bem
Manter sempre a família tão unida
Do chão seco arrancar o pão da vida
Sertanejo faz isso e mais ninguém.


No sertão quando o inverno não vem
Só se encontra desolação e mágoa
No riacho não vê-se um pingo d’água
Sopra um vento assombroso do além
Seca o tronco robusto do muquém
Cai a folha mais grossa, murcha a fina
Toda árvore murchece, se inclina
No calor do sol quente verga as costas
Parecendo um fantasma de mãos postas
No altar de uma seca nordestina.

No verão quando o sol se descortina
Se escuta o zumbido das abelhas
O balir melancólico das ovelhas
O dueto dos pássaros da matina
O bonito alazão sacode a crina
O vaqueiro aboiando chama a rês
Os cancões gritam todos de uma vez
Acusando a presença da serpente
No concerto de música diferente
Da orquestra sinfônica que Deus fez.

E o traje do homem camponês
Quando sai para a festa ou para feira
É a calça de mescla, uma peixeira
Um paletó listrado de xadrez
Umas botas do couro de uma rês
Para dançar forró enquanto é moço
Um chapéu aba larga grande e grosso
Com a pena qualquer de um passarinho
E a medalha fiel do meu padrinho
Com um rosário enfiado no pescoço.

Falar mal do sertão hoje eu não ouço
Não se entrega ao cansaço ou enxaqueca
Um herói pelejando contra a seca
Contra a cheia combate sem sombrosso
Respeita a moral de velho ou moço
Também quer vê a sua respeitada
Sem Brasil a América é derrotada
Com  Brasil a América vale mil
Sem Nordeste o Brasil não é Brasil
E sem Sertão o Nordeste não é nada.

No sertão quando rompe a alvorada
No oitão do terreiro um frango pia
Uma cobra valente engole jia
Na floresta desperta a passarada
Canta uma canção tão afinada
Que parece uma orquestra universal
Um peru dá três voltas no quintal
Um cabrito na cabra puxa os seios
E o vaqueiro esvazio os peitos cheios
De uma vaca leiteira no curral.

Numa sombra que dá no mangueiral
O cachorro brigando com o teiú
A caçada de peba e de tatu
A novena, uma noite de natal
A carne de sol com pouco sal
Cantoria louvada com bandeja
No pilão duas moças na peleja
Uma arranca de inhame e de maniva
Isso aí é a cópia pura e viva
Da mais bela paisagem sertaneja.

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2 COMENTÁRIOS

  1. A cantoria, o cordel e o repente foram o jornal do sertão, além da diversão dos velhos terreiros dos muitos sítios espalhados naquele mundão de Deus. Sem energia elétrica, sem água encanada, vida simples, sem luxo e sem cerimônia. Porém farta e tranquila.
    Nossa terra? Lavras da Mangabeira, exportou muitos desses talentos e foi mote para muitas cantorias. É, hoje o amigo João traz a tona recordações de um tempo bom, não apenas em Lavras, em Campina Grande também, cidade que durante 4 anos morei.

  2. A visão acurada e o faro cultural mais afinado do sul do Ceará faz de Cristina Couto uma referência.
    A propósito de Campina Grande, foi no ginasio da AABB da Rainha da Borborema que assisti um festival de violas inesquecivel. Nessas duas noites conheci: Manoel Xudu, Otacílio Batista, Oliveira de Panelas, Manoel Serrador, Valdir Teles, Louro Branco, Canhotinho, João Furiba, Mocinha da Passira e a dupla de jovens violeiros Geraldo Amancio e Ivanildo Vilanova. Contaram como our concour, Pinto do Monteiro e Lourival Batista. Inesquecivel!

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